terça-feira, 10 de novembro de 2009

soliloquio de um visionario

O caso de Adanaldo






1.





O findar das trevas da madrugada se estremecia em um ventar frio sobre arbustos num trecho, onde a pouco apagara a luz dos postes a algum custo. Adanaldo, descontente, esgueirava-se nos altos muros da indústria de fusão do aço bruto. Por trás dos tapumes rugia um chiado de fornalhas que, na ação das chuvas, brumas de vapor fazia surgir de fora e, deslizavam fantasmas quentes nas paredes. Adanaldo previa estar à beira de um pé d’água.
A alguns passos antes de uma fenda obscura que se fez beco, onde anônimos se apelidavam com álcool e por muitas vezes lá dormiam, um cheiro forte de gordura aberta em corte em corpo vivo, enfiava-se, como dedos de odor que fincam, nas narinas de Adnaldo.
Era muito tímida sua vontade de seguir adiante. Então, debruçou-se sobre seus sapatos. Pensava que daqui a alguns instantes estariam insuportáveis inchados como esponjas. E por seu estado de espírito presente, seriam como esferas de ferro denso preso à corrente no tornozelo fatigado.
As primeiras gotas caíram gordas, feitas moedas em bolhas de mercúrio. Não doía no contato quanto o futum que subia agora. Em pouco tempo, Adanaldo se encharcou de cima a baixo e, por sorte avistou que o beco habitava alguém na tenda de lona posta com duas, três estacas de madeira. Mais alcançava a tenda, mais o fedor se exagerava. Já não sentia os pés dormentes pela chuva misturada à friagem e, a imersão na atmosfera da tenda confirmou que era dali onde aquele inusitado cheiro partia.
Por vinte minutos a chuva devorava o horizonte, tornando-o turvo como a fase da neblina no jogo Enduro do Atari. Adanaldo se agoniou e, mesmo antes da chuva terminar se apressou em direção a seu apartamento.
“Desapareço! Sumo! Ninguém vai me encontrar agora.”
Pronunciou isso enquanto abria a porta.
Adanaldo sofria de ataques e convulsões sinceras. Seu estado não era bom. Fazia dois anos, tinha aceitado trabalhar no despacho de cadáveres de outras cidades que por ventura ali, em Cartinima, pediam passagem no cemitério. Aroldo, seu superior, era quem organizava tudo na verdade. Cabia a Adanaldo somente suspender o caixão com o Omar, coloca-lo dentro da van e despachar, ate o dia em que Aroldo lhe deu outra incumbência: recepcionar os corpos diretamente com Omar.
Certo evento, Adanaldo reparou algo esquisito nas pálpebras de um falecido. A razão de sua atenção ter se voltado a isso foi o fato de não se encontrar os olhos naquele corpo. O coitado Adanaldo não se conteve e mais que ligeiro foi ao encontro de Omar.
“Ei homi! Digo-te e venha ter a prova que em um dos corpos faltam os olhos!”
Omar estatelou os próprios e indagou a maluquice. Quando de fato confirmou que o corpo no caixão pronto e posto no carro para deixar a cidade, estava realmente sem os olhos, engasgou. Recompôs-se com ar de insegurança, tremendo. Chegou bem perto e sussurrou no ouvido de Adanaldo uma dose de surpresa bizarra junta da acidez fétida que lhe escapava da garganta pelo halito.
“Por mil desculpas. Sou filho de Deus como você. Tenho de esclarecer que desde a semana passada sei deste corpo sem os olhos. E sei bem por que fui eu mesmo quem os extraiu. Não ache demais meu caso, de terror. Isso não significou, ate então, absolutamente nada. Continuo o mesmo. Há algum tempo que um senhor me aparece aqui oferecendo 900 contos por cada olho que eu lhe entregar. Desde a semana passada que venho extraindo os olhos dos cadáveres antes de tu despachar.”
“E quantos foram ate agora?” Perguntou Adanaldo que já se ouriçava, suando como um bicho de pele mole.
“Contam já quatro. E o tal senhor diz que precisa de mais.”

2.

Ao se recordar disso Adanaldo engoliu seco depois de passar por uma chuva daquelas, pensando sobre o que haveria de ter feito com o ultimo cadáver. Para ele foi um acidente. Mas, tinha por certo que foi Omar quem causou a morte daquele homem. Quando chegou pela manha na garagem funerária, Omar estava com um comportamento demasiado esquisito. Disse que, antes de Adanaldo chegar alguém deixou um corpo para enviar para outra cidade. So que de uma hora para outra o corpo, supostamente morto tomou vida e o senhor contratante lhe acertou com um cassetete na cabeça. Em seguida, o tal que pagava Omar para extrair os olhos chegou e disse que se apressasse, posto que o tempo fosse curto e este seria o ultimo trabalho.
Os dois homens saíram discutindo em uma língua que Omar disse não saber qual. Deste momento ate a chegada de Adanaldo passaram mais ou menos dez minutos e, ainda Omar não tinha feito o serviço e pediu a Adanaldo que o fizesse, pois tinha de ir buscar o carro para fazer a transferência. Omar se retirou deixando Adanaldo no mas... mas...

3.

Estava ali um corpo robusto. Media um metro e oitenta e pesava mais de noventa quilos seguramente. Adanaldo se contorcia para tomar atitude. Avistou uma faca sobre a mesa. Ao menos parecia. Um peso medroso tomou o lugar e Adanaldo não conseguia flexionar um discurso naquele instante. Foi quando escutou um barulho vindo da porta dos fundos.
Aroldo abriu a porta e se deparou com Adanaldo buscando a faca.

4.

“O que você pensa que esta fazendo Adanaldo?” - Disse Aroldo.
Por trás dele vinha um senhor que fez com a mao para que Adanaldo não dissesse nada. Em instantes o homem asfixiou Aroldo com um pano embebido de formol, sacou da faca na mesa e extraiu delicadamente os olhos do falecido. Surpreendeu Adanaldo enfiando a mao no casaco e puxando um embrulho em papel de pão. Deu para ele, disse “Good.” e se retirou.
Adanaldo abriu o pacote e havia dinheiro de demorar contar. Enfiou no bolso e saiu voado, deixando como estava a situação na funerária.

5.

Já em casa, onde o deixamos, começou a contar o dinheiro que somava 2.000 contos em notas de 10, 20 e 50.
“Desapareço! Sumo!”
Quando pensou que não, desferiram um golpe que levou abaixo sua porta. Era o tal senhor que estava no beco horroroso. Sua feição era de um vandalo disposto a estrangular. Correu enlouquecido na direção de Adanaldo que fugia entremeios das cortinas, caindo pelas janelas e, correndo feito doido, pulou o muro dos fundos da sua casa e se perdeu noite adentro. Estava encucado porque raios alguém iria atrás dele. Se fosse pela cena na funerária já era demais, pois todo o serviço estava feito. Sera que o brutamonte foi enviado por Aroldo? O animo lhe foi baixando a energia vital e o levou ate a funerária novamente. Não percebia o porquê de seu corpo ter tomado autonomia e ido sem consciência ate la.

6.

Não havia mais nada na cena. Tudo estava limpo. Sem Aroldo, sem caixão, sem defunto, sem sangue; limpo. Algo apossou de Adanaldo de vez e o fez sentir calafrios internos e adimirar vultos pretos que circulavam na sala por cima das coisas. Parecia que tinha algum gás disperso; algum gás que dah tonteira e devaneio. Adanaldo sai pela segunda vez se esgueirando nos muros da indústria e percebe os vultos sobre a fumaça que a chuva fria no muro quente deixava subir constantemente.
O cheiro. Aquele cheiro de gordura de gente. Adanaldo entrou no beco e a tenda ainda la estava. Ele seguiu o cheiro ate os fundos e se sentou recostado. Com as mãos soterrava os dedos na lama em poça ao seu lado em chão batido. Havia perdido a consciência por ora.
Foi quando sentiu uma textura plástica, enquanto enfiava a metade do antebraço dentro da lama. Era algo como um saco que Adanaldo puxou para a superfície. Um saco preto com o odor ruim de antes elevado a décima potencia. Adanaldo teve a displicência de olhar o que havia dentro. Eram dois pares de olhos frescos. O que fez Adanaldo supor que seus donos não estariam longe. De pensar que havia duas pessoas sem os olhos por ai, Adanaldo se irritou e soltou um grito escandaloso. Não sabia o que pensar e foi correndo ate o cemitério.
Logo na entrada, com o saco na mao, Adanaldo sentiu um torpor que tomava a atmosfera inteira. Entrou corajoso e seguiu para uma capela distante. La havia dois corpos no chão. Observou bem e viu que não tinham olhos. Observou mais e percebeu sangue nas bocas. Grotesco. Adanaldo perdeu a força nas pernas e sentou, danando a chorar, fazendo os corpos de encosto. Não sabia se os olhos que tinha em mãos eram daquelas pessoas. Não sabia o que haveria daquelas pessoas terem feito para estarem com os lábios de sangue.
Ao lado havia uma carta. Um pedaço de papel, junto de uma espécie de colher bem côncava pontiaguda. Havia também uma caneta.
Ensandecido, Adanaldo leu o trecho escrito, pegou a caneta e escreveu abaixo, como uma assinatura -“morto”.
Sacou da colher e somente imaginou amargurado. Arrancou os próprios olhos. A dor que o consumia o fez mastiga-los gofando, engoliu em seguida apagou. Sobre os outros dois corpos. Sua ultima visão foi o escrito no papel que apreciava a seguinte poesia assinada por Adanaldo:

Para desvirginar o labirinto
Do velho e metafísico Mistério
Comi meus olhos crus no cemitério
Numa antropofagia do faminto
A digestão desse manjar funéreo
Tornado sangue transformou-me o instinto
De humanas impressões visuais que sinto
Das divinas visões do íncola etéreo!
Vestido de hidrogênio incandescente,
Morto!













Nenhum comentário:

Postar um comentário