terça-feira, 10 de novembro de 2009

O caso de Ayupe

considero pronto este conto:
O caso de Ayupe
1.


De repente a agua invadiu os pulmoes de Ayupi que por ter visto os mergulhadores ao longe em auto mar jogando-se de costas da lancha, quis fazer o mesmo com sua pequena balsa que ganhou de presente do Edin na festa, quando ainda o tempo para ele media seis anos de idade.
Saiu cedo de casa que ladeava o que ainda restou de belo do litoral brasileiro, o sul do estado de Joao Pessoa. Uma cabana de taipa feita com esmero para aguentar chuvarada; com bananeiras, umas tres; pé de brenfa que para cada canto tem nome diferente, areia fina, refinada e grama de praia seca com seis, sete palmeiras de coqueiro. A esquerda, um rio que aparece em natureza ousando uma via de acesso ao mar. A frente, o embaralhamento confuso dos galhos cipos da mata atlantica. A direita, um promissor pomar recem produzido. Atras, o infinito horizonte do oceano que Ayupe alvejava.
2.
Edin, era um senhor muito aprumado, como dizem, direito. Vivia na cabana com Ayupi e Ionà. Gozava de seus pescados para conseguir dinheiro e contribuia na sobrevivencia dos tres já faz seis anos. Vinha de longe a cavalo, quando viu a cabana de Ningà se desmanchando em labaredas, a custo de um vizinho ter entrado com um Jipe no azar das circunstancias, onde Ningà mantinha seu botijao de gas. Foi um estouro e tanto, disse Ayupe, que so se lembra disso vagamente, pois era muito pequeno e escutou o espalhafato, enquanto era ninado por Ningà que viu de longe a chama e saiu correndo, deixando Ayupi aos cuidados de Ionà.
Não se sabe o espirito que tomou Ningà para ter ela entrado determinada em meio as chamas. Ionà diz que Ningà sabia o que buscava. Seguramente algo importante pra ter arriscado a propria vida e no excesso do fogo se deixar findar. Iona chorava com Ayupe no colo, quando Edin chegou e disse com ar de autoridade que não havia mais nada o que fazer naquela situaçao a não ser esperar o fogo ser queimado pelo vento ate acabar sua fonte de alimento: a cabana, o Jipe e, por ventura, o vizinho e Ningà, mae de Ayupi.
3.
Pela manha, Iona e Ayupi adormeciam sob o teto de palma e taipa feito por Edin para resguardo do sereno e do vento. O mesmo já havia ido ate a estrada que contava distancia de uns 3km do local para conseguir ajuda; acionar os bombeiros. Mas, nada. Nenhuma alma passeava e o tempo corria a sexta hora do dia. Percorreu a estrada ate dar de vista com um pequeno vilarejo, onde um senhor ofereceu seu telefone para pedir socorro. Em uma venda de bebidas conseguiram o numero dos bombeiros e, Ionà despertou, quando já haviam chegado com Edin há algum tempo e prestado o socorro que lhes alcançava.
Fiquem aqui, voltarei com homens para ajudar na construçao da nova cabana para voces. Sinto muito. Precisamos ser rapidos, deixemos as apresentaçoes para depois. Este garoto precisa de um lar. Foram as palavras de Edin para Iona que com os olhos umidos de choro fez que sim com a cabeça e foi ao encontro de Ayupi que ainda adormecia.
4.
Edin não fez caso de ir na cidade. Achou que estava de melhor tamanho buscar companheiros no vilarejo, por crer que seriam homens mais sensiveis às fatalidades e, não homens da cidade que achariam, a seu ver, normal o perverso pelo seu excesso uso e abuso gratuito.
Quando encontrou o primeiro cabra disposto a ajudar já estava cansado de procurar e ficou so um homem mesmo, Reginaldo, vulgo Patola. Cabeça feita. Maluco que anda pela noite. Que gosta da noite. Que gosta de se envolver com açoes rituais na floresta, junto com outros de mesma estirpe dada aos espiritos e a natureza. Edin não sabia disso. Soube depois, quando esperou por tempo corrido Ayupe, que por sua esquisita enfermidade foi dado a fazer um trabalho, um rito, no intuito de sarar, num canto la pelo meio do mato com o Patola, certo dia.
Reginaldo ficou com os tres, somando ate o fim da edificaçao da cabana. Foi ele quem fez o piso batido de entulho, rocha de praia e cal. Adorava levar Ayupe na praia dos pescadores que saiam cedo rumo ao mar em suas jangadas e canoas, por conta de ver o encantamento do garoto pelo infinito, pela solidao morbida que tras a ideia do infinito.
5.
Na tarde de homenagem à Ninga, veio algumas de suas conhecidas da cidade.
Vieram rogar graças, o feirante que passeava toda a manha na borda da praia vendendo leite e, sua companheira que compartilhava os ritos com o Patola.
Nesse dia, Ayupe somava um ano e meio e em sua cabeça dislumbrada de criança, sentiu a perda materna como algo extremamente inconcebivel. Não teve espasmos histericos, nem chorava magoado ou triste pelos cantos. Mas, aquilo nunca lhe entrou na cabeça. Para ele, sua mae não tinha findado. Nisso, contorcia-se num sentimento maluco: Ela ainda vive!
Ayupe conversava, brincava, sorria, pulava como o que parece comum nas crianças mas, seu temperamento agudo o levava a dormir todos os dias nos cantos dos quartos da cabana. Por centenas de vezes aconteceu de Iona encontrar Ayupe com a manta de dormir deitado, dormindo pelos cantos da cabana. Isso se repetiu ate entao, quando no passo dessa historia ele soma seis anos de idade e sofre de uma agonia cabulosa: é incapaz de respirar pelo nariz, assim não sente o cheiro que as coisas tem.
O primeiro a saber, como o primeiro a ajudar, foi Regilnaldo. Ayupe, no dia da festa de seus seis anos, gritava enlouquecido com tais comentarios sobre os aromas dos doces e dos refrigerantes; fala que por que diabos tinha que ser introduzida por Iona, quando sobre o bolo de confeito respirou profundamente o sabor da guloseima.
Não foi dito, mas Iona soma doze anos, quando no incendio da cabana somava seis... temos aqui um caso que merece estudo.
Soube que Edin foi quem procurou Rosalda, conhecida de Ninga, ainda ausente. Ela lhe disse que quem fazia esse retorno do sentido era Regilnaldo.
Outro caso foi uma garotinha que não ligava uma coisa com outra, sabe? Alguns psicologistas fisiologicos transeuntes disseram que era outro algum tipo de atraso mental pelo mau desenvolvimentos da celulas cerebrais. Diz que Regilnaldo uma vez raptou essa criança na noite e sumiu com ela no mato por tres meses. O retorno foi que a menina demonstrou ligar coisa com algo. Todos acharam otimo e, de fato vem daí a fama de Regilnaldo curandeiro. O interrogaram e ele afirmou que não havia feito nada, somente que na noite do sequestro, os dois comeram meia rodela de abacaxi.
Edin ficou satisfeito com isso e quase que obrigou Regilnaldo que fizesse o mesmo trabalho com Ayupe. Regilnado inespressivo lhe adiantou que para tanto, havia o detalhe de poder não funcionar com seu entiado. Mesmo assim, Edin pediu que o fizesse. Regilnaldo disse que com Ayupe há de se passar no mar o rito. Quando pensaram que não Ayupe se soltou dos cuidados de Iona, pegou seu presente de aniversario e foi correndo para o meio do mato. Todos foram em sua busca e na floresta permaneceram por toda a noite com lampioes. Ayupe deu um jeito de voltar para cabana e adormeceu no mastro de centro.
6.

Quando acordou foi de subito que levantou e se lançou rumo ao mar. Quando viu os mergulhadores da beira da praia, montou em sua pequena jangada, enquanto forçava contra as onda com braçadas. Foi quando o cheiro do mar lhe enfiou nas narinas com impeto tal que lhe deu tonteira e fez cair Ayupe no mar a mais ou menos sessenta metros da praia. A primeira vez que Ayupe sentiu cheiro foi a vez que ele não quis recusar e, na ansia de sugar o odor pelas fuças se afogou.
Ayupe acordou na antiga cabana. Antes do incendio. Sua mae foi quem lhe salvou do afogamento. Foi uma cena cheia de abraços quando do seu despertar. Ayupe se levantou em pé em seu corpo de um ano de idade e fez com força para sentir os aromas presentes... nada. Alguem gritou: meu filho acordou! Era Edin, que agora nestas condiçoes de existência se virava de capitao do mato. Foi o homem que no dia de ontem de agora tinha apanhado do terreno de Onofre um preto fugitivo que por ter oferecido resistencia no aprisionamento, foi levado à morte. Tal preto era Regilnaldo de outro tempo. Talvez, agora nem sejam mais Edin e Ayupe o nome dos outros.




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