sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

mais de um mÊs e nada... as pessoas ainda estão aí?
estou com alguns compromissos entediados... não quero participar de fluidez coaguladas... quero a tendência ao espectro da sede do desejo das coisas!
torno pública minha saída do grupo.

nada pessoal

um abraço

ps: se alguém ainda pilhar de seguir o projeto me avisa particularmente. já tenho os 5 sentidos escritos...
inicio outro projeto agora de superação sensitiva... estou escrevendo um conto de um cara que empesteia as narinas de todos com o odor fétido das unhas... imposições sensitivas... arrogâncias de nossas fragâncias.

ADEUS

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O caso de Ayupe

considero pronto este conto:
O caso de Ayupe
1.


De repente a agua invadiu os pulmoes de Ayupi que por ter visto os mergulhadores ao longe em auto mar jogando-se de costas da lancha, quis fazer o mesmo com sua pequena balsa que ganhou de presente do Edin na festa, quando ainda o tempo para ele media seis anos de idade.
Saiu cedo de casa que ladeava o que ainda restou de belo do litoral brasileiro, o sul do estado de Joao Pessoa. Uma cabana de taipa feita com esmero para aguentar chuvarada; com bananeiras, umas tres; pé de brenfa que para cada canto tem nome diferente, areia fina, refinada e grama de praia seca com seis, sete palmeiras de coqueiro. A esquerda, um rio que aparece em natureza ousando uma via de acesso ao mar. A frente, o embaralhamento confuso dos galhos cipos da mata atlantica. A direita, um promissor pomar recem produzido. Atras, o infinito horizonte do oceano que Ayupe alvejava.
2.
Edin, era um senhor muito aprumado, como dizem, direito. Vivia na cabana com Ayupi e Ionà. Gozava de seus pescados para conseguir dinheiro e contribuia na sobrevivencia dos tres já faz seis anos. Vinha de longe a cavalo, quando viu a cabana de Ningà se desmanchando em labaredas, a custo de um vizinho ter entrado com um Jipe no azar das circunstancias, onde Ningà mantinha seu botijao de gas. Foi um estouro e tanto, disse Ayupe, que so se lembra disso vagamente, pois era muito pequeno e escutou o espalhafato, enquanto era ninado por Ningà que viu de longe a chama e saiu correndo, deixando Ayupi aos cuidados de Ionà.
Não se sabe o espirito que tomou Ningà para ter ela entrado determinada em meio as chamas. Ionà diz que Ningà sabia o que buscava. Seguramente algo importante pra ter arriscado a propria vida e no excesso do fogo se deixar findar. Iona chorava com Ayupe no colo, quando Edin chegou e disse com ar de autoridade que não havia mais nada o que fazer naquela situaçao a não ser esperar o fogo ser queimado pelo vento ate acabar sua fonte de alimento: a cabana, o Jipe e, por ventura, o vizinho e Ningà, mae de Ayupi.
3.
Pela manha, Iona e Ayupi adormeciam sob o teto de palma e taipa feito por Edin para resguardo do sereno e do vento. O mesmo já havia ido ate a estrada que contava distancia de uns 3km do local para conseguir ajuda; acionar os bombeiros. Mas, nada. Nenhuma alma passeava e o tempo corria a sexta hora do dia. Percorreu a estrada ate dar de vista com um pequeno vilarejo, onde um senhor ofereceu seu telefone para pedir socorro. Em uma venda de bebidas conseguiram o numero dos bombeiros e, Ionà despertou, quando já haviam chegado com Edin há algum tempo e prestado o socorro que lhes alcançava.
Fiquem aqui, voltarei com homens para ajudar na construçao da nova cabana para voces. Sinto muito. Precisamos ser rapidos, deixemos as apresentaçoes para depois. Este garoto precisa de um lar. Foram as palavras de Edin para Iona que com os olhos umidos de choro fez que sim com a cabeça e foi ao encontro de Ayupi que ainda adormecia.
4.
Edin não fez caso de ir na cidade. Achou que estava de melhor tamanho buscar companheiros no vilarejo, por crer que seriam homens mais sensiveis às fatalidades e, não homens da cidade que achariam, a seu ver, normal o perverso pelo seu excesso uso e abuso gratuito.
Quando encontrou o primeiro cabra disposto a ajudar já estava cansado de procurar e ficou so um homem mesmo, Reginaldo, vulgo Patola. Cabeça feita. Maluco que anda pela noite. Que gosta da noite. Que gosta de se envolver com açoes rituais na floresta, junto com outros de mesma estirpe dada aos espiritos e a natureza. Edin não sabia disso. Soube depois, quando esperou por tempo corrido Ayupe, que por sua esquisita enfermidade foi dado a fazer um trabalho, um rito, no intuito de sarar, num canto la pelo meio do mato com o Patola, certo dia.
Reginaldo ficou com os tres, somando ate o fim da edificaçao da cabana. Foi ele quem fez o piso batido de entulho, rocha de praia e cal. Adorava levar Ayupe na praia dos pescadores que saiam cedo rumo ao mar em suas jangadas e canoas, por conta de ver o encantamento do garoto pelo infinito, pela solidao morbida que tras a ideia do infinito.
5.
Na tarde de homenagem à Ninga, veio algumas de suas conhecidas da cidade.
Vieram rogar graças, o feirante que passeava toda a manha na borda da praia vendendo leite e, sua companheira que compartilhava os ritos com o Patola.
Nesse dia, Ayupe somava um ano e meio e em sua cabeça dislumbrada de criança, sentiu a perda materna como algo extremamente inconcebivel. Não teve espasmos histericos, nem chorava magoado ou triste pelos cantos. Mas, aquilo nunca lhe entrou na cabeça. Para ele, sua mae não tinha findado. Nisso, contorcia-se num sentimento maluco: Ela ainda vive!
Ayupe conversava, brincava, sorria, pulava como o que parece comum nas crianças mas, seu temperamento agudo o levava a dormir todos os dias nos cantos dos quartos da cabana. Por centenas de vezes aconteceu de Iona encontrar Ayupe com a manta de dormir deitado, dormindo pelos cantos da cabana. Isso se repetiu ate entao, quando no passo dessa historia ele soma seis anos de idade e sofre de uma agonia cabulosa: é incapaz de respirar pelo nariz, assim não sente o cheiro que as coisas tem.
O primeiro a saber, como o primeiro a ajudar, foi Regilnaldo. Ayupe, no dia da festa de seus seis anos, gritava enlouquecido com tais comentarios sobre os aromas dos doces e dos refrigerantes; fala que por que diabos tinha que ser introduzida por Iona, quando sobre o bolo de confeito respirou profundamente o sabor da guloseima.
Não foi dito, mas Iona soma doze anos, quando no incendio da cabana somava seis... temos aqui um caso que merece estudo.
Soube que Edin foi quem procurou Rosalda, conhecida de Ninga, ainda ausente. Ela lhe disse que quem fazia esse retorno do sentido era Regilnaldo.
Outro caso foi uma garotinha que não ligava uma coisa com outra, sabe? Alguns psicologistas fisiologicos transeuntes disseram que era outro algum tipo de atraso mental pelo mau desenvolvimentos da celulas cerebrais. Diz que Regilnaldo uma vez raptou essa criança na noite e sumiu com ela no mato por tres meses. O retorno foi que a menina demonstrou ligar coisa com algo. Todos acharam otimo e, de fato vem daí a fama de Regilnaldo curandeiro. O interrogaram e ele afirmou que não havia feito nada, somente que na noite do sequestro, os dois comeram meia rodela de abacaxi.
Edin ficou satisfeito com isso e quase que obrigou Regilnaldo que fizesse o mesmo trabalho com Ayupe. Regilnado inespressivo lhe adiantou que para tanto, havia o detalhe de poder não funcionar com seu entiado. Mesmo assim, Edin pediu que o fizesse. Regilnaldo disse que com Ayupe há de se passar no mar o rito. Quando pensaram que não Ayupe se soltou dos cuidados de Iona, pegou seu presente de aniversario e foi correndo para o meio do mato. Todos foram em sua busca e na floresta permaneceram por toda a noite com lampioes. Ayupe deu um jeito de voltar para cabana e adormeceu no mastro de centro.
6.

Quando acordou foi de subito que levantou e se lançou rumo ao mar. Quando viu os mergulhadores da beira da praia, montou em sua pequena jangada, enquanto forçava contra as onda com braçadas. Foi quando o cheiro do mar lhe enfiou nas narinas com impeto tal que lhe deu tonteira e fez cair Ayupe no mar a mais ou menos sessenta metros da praia. A primeira vez que Ayupe sentiu cheiro foi a vez que ele não quis recusar e, na ansia de sugar o odor pelas fuças se afogou.
Ayupe acordou na antiga cabana. Antes do incendio. Sua mae foi quem lhe salvou do afogamento. Foi uma cena cheia de abraços quando do seu despertar. Ayupe se levantou em pé em seu corpo de um ano de idade e fez com força para sentir os aromas presentes... nada. Alguem gritou: meu filho acordou! Era Edin, que agora nestas condiçoes de existência se virava de capitao do mato. Foi o homem que no dia de ontem de agora tinha apanhado do terreno de Onofre um preto fugitivo que por ter oferecido resistencia no aprisionamento, foi levado à morte. Tal preto era Regilnaldo de outro tempo. Talvez, agora nem sejam mais Edin e Ayupe o nome dos outros.




soliloquio de um visionario

O caso de Adanaldo






1.





O findar das trevas da madrugada se estremecia em um ventar frio sobre arbustos num trecho, onde a pouco apagara a luz dos postes a algum custo. Adanaldo, descontente, esgueirava-se nos altos muros da indústria de fusão do aço bruto. Por trás dos tapumes rugia um chiado de fornalhas que, na ação das chuvas, brumas de vapor fazia surgir de fora e, deslizavam fantasmas quentes nas paredes. Adanaldo previa estar à beira de um pé d’água.
A alguns passos antes de uma fenda obscura que se fez beco, onde anônimos se apelidavam com álcool e por muitas vezes lá dormiam, um cheiro forte de gordura aberta em corte em corpo vivo, enfiava-se, como dedos de odor que fincam, nas narinas de Adnaldo.
Era muito tímida sua vontade de seguir adiante. Então, debruçou-se sobre seus sapatos. Pensava que daqui a alguns instantes estariam insuportáveis inchados como esponjas. E por seu estado de espírito presente, seriam como esferas de ferro denso preso à corrente no tornozelo fatigado.
As primeiras gotas caíram gordas, feitas moedas em bolhas de mercúrio. Não doía no contato quanto o futum que subia agora. Em pouco tempo, Adanaldo se encharcou de cima a baixo e, por sorte avistou que o beco habitava alguém na tenda de lona posta com duas, três estacas de madeira. Mais alcançava a tenda, mais o fedor se exagerava. Já não sentia os pés dormentes pela chuva misturada à friagem e, a imersão na atmosfera da tenda confirmou que era dali onde aquele inusitado cheiro partia.
Por vinte minutos a chuva devorava o horizonte, tornando-o turvo como a fase da neblina no jogo Enduro do Atari. Adanaldo se agoniou e, mesmo antes da chuva terminar se apressou em direção a seu apartamento.
“Desapareço! Sumo! Ninguém vai me encontrar agora.”
Pronunciou isso enquanto abria a porta.
Adanaldo sofria de ataques e convulsões sinceras. Seu estado não era bom. Fazia dois anos, tinha aceitado trabalhar no despacho de cadáveres de outras cidades que por ventura ali, em Cartinima, pediam passagem no cemitério. Aroldo, seu superior, era quem organizava tudo na verdade. Cabia a Adanaldo somente suspender o caixão com o Omar, coloca-lo dentro da van e despachar, ate o dia em que Aroldo lhe deu outra incumbência: recepcionar os corpos diretamente com Omar.
Certo evento, Adanaldo reparou algo esquisito nas pálpebras de um falecido. A razão de sua atenção ter se voltado a isso foi o fato de não se encontrar os olhos naquele corpo. O coitado Adanaldo não se conteve e mais que ligeiro foi ao encontro de Omar.
“Ei homi! Digo-te e venha ter a prova que em um dos corpos faltam os olhos!”
Omar estatelou os próprios e indagou a maluquice. Quando de fato confirmou que o corpo no caixão pronto e posto no carro para deixar a cidade, estava realmente sem os olhos, engasgou. Recompôs-se com ar de insegurança, tremendo. Chegou bem perto e sussurrou no ouvido de Adanaldo uma dose de surpresa bizarra junta da acidez fétida que lhe escapava da garganta pelo halito.
“Por mil desculpas. Sou filho de Deus como você. Tenho de esclarecer que desde a semana passada sei deste corpo sem os olhos. E sei bem por que fui eu mesmo quem os extraiu. Não ache demais meu caso, de terror. Isso não significou, ate então, absolutamente nada. Continuo o mesmo. Há algum tempo que um senhor me aparece aqui oferecendo 900 contos por cada olho que eu lhe entregar. Desde a semana passada que venho extraindo os olhos dos cadáveres antes de tu despachar.”
“E quantos foram ate agora?” Perguntou Adanaldo que já se ouriçava, suando como um bicho de pele mole.
“Contam já quatro. E o tal senhor diz que precisa de mais.”

2.

Ao se recordar disso Adanaldo engoliu seco depois de passar por uma chuva daquelas, pensando sobre o que haveria de ter feito com o ultimo cadáver. Para ele foi um acidente. Mas, tinha por certo que foi Omar quem causou a morte daquele homem. Quando chegou pela manha na garagem funerária, Omar estava com um comportamento demasiado esquisito. Disse que, antes de Adanaldo chegar alguém deixou um corpo para enviar para outra cidade. So que de uma hora para outra o corpo, supostamente morto tomou vida e o senhor contratante lhe acertou com um cassetete na cabeça. Em seguida, o tal que pagava Omar para extrair os olhos chegou e disse que se apressasse, posto que o tempo fosse curto e este seria o ultimo trabalho.
Os dois homens saíram discutindo em uma língua que Omar disse não saber qual. Deste momento ate a chegada de Adanaldo passaram mais ou menos dez minutos e, ainda Omar não tinha feito o serviço e pediu a Adanaldo que o fizesse, pois tinha de ir buscar o carro para fazer a transferência. Omar se retirou deixando Adanaldo no mas... mas...

3.

Estava ali um corpo robusto. Media um metro e oitenta e pesava mais de noventa quilos seguramente. Adanaldo se contorcia para tomar atitude. Avistou uma faca sobre a mesa. Ao menos parecia. Um peso medroso tomou o lugar e Adanaldo não conseguia flexionar um discurso naquele instante. Foi quando escutou um barulho vindo da porta dos fundos.
Aroldo abriu a porta e se deparou com Adanaldo buscando a faca.

4.

“O que você pensa que esta fazendo Adanaldo?” - Disse Aroldo.
Por trás dele vinha um senhor que fez com a mao para que Adanaldo não dissesse nada. Em instantes o homem asfixiou Aroldo com um pano embebido de formol, sacou da faca na mesa e extraiu delicadamente os olhos do falecido. Surpreendeu Adanaldo enfiando a mao no casaco e puxando um embrulho em papel de pão. Deu para ele, disse “Good.” e se retirou.
Adanaldo abriu o pacote e havia dinheiro de demorar contar. Enfiou no bolso e saiu voado, deixando como estava a situação na funerária.

5.

Já em casa, onde o deixamos, começou a contar o dinheiro que somava 2.000 contos em notas de 10, 20 e 50.
“Desapareço! Sumo!”
Quando pensou que não, desferiram um golpe que levou abaixo sua porta. Era o tal senhor que estava no beco horroroso. Sua feição era de um vandalo disposto a estrangular. Correu enlouquecido na direção de Adanaldo que fugia entremeios das cortinas, caindo pelas janelas e, correndo feito doido, pulou o muro dos fundos da sua casa e se perdeu noite adentro. Estava encucado porque raios alguém iria atrás dele. Se fosse pela cena na funerária já era demais, pois todo o serviço estava feito. Sera que o brutamonte foi enviado por Aroldo? O animo lhe foi baixando a energia vital e o levou ate a funerária novamente. Não percebia o porquê de seu corpo ter tomado autonomia e ido sem consciência ate la.

6.

Não havia mais nada na cena. Tudo estava limpo. Sem Aroldo, sem caixão, sem defunto, sem sangue; limpo. Algo apossou de Adanaldo de vez e o fez sentir calafrios internos e adimirar vultos pretos que circulavam na sala por cima das coisas. Parecia que tinha algum gás disperso; algum gás que dah tonteira e devaneio. Adanaldo sai pela segunda vez se esgueirando nos muros da indústria e percebe os vultos sobre a fumaça que a chuva fria no muro quente deixava subir constantemente.
O cheiro. Aquele cheiro de gordura de gente. Adanaldo entrou no beco e a tenda ainda la estava. Ele seguiu o cheiro ate os fundos e se sentou recostado. Com as mãos soterrava os dedos na lama em poça ao seu lado em chão batido. Havia perdido a consciência por ora.
Foi quando sentiu uma textura plástica, enquanto enfiava a metade do antebraço dentro da lama. Era algo como um saco que Adanaldo puxou para a superfície. Um saco preto com o odor ruim de antes elevado a décima potencia. Adanaldo teve a displicência de olhar o que havia dentro. Eram dois pares de olhos frescos. O que fez Adanaldo supor que seus donos não estariam longe. De pensar que havia duas pessoas sem os olhos por ai, Adanaldo se irritou e soltou um grito escandaloso. Não sabia o que pensar e foi correndo ate o cemitério.
Logo na entrada, com o saco na mao, Adanaldo sentiu um torpor que tomava a atmosfera inteira. Entrou corajoso e seguiu para uma capela distante. La havia dois corpos no chão. Observou bem e viu que não tinham olhos. Observou mais e percebeu sangue nas bocas. Grotesco. Adanaldo perdeu a força nas pernas e sentou, danando a chorar, fazendo os corpos de encosto. Não sabia se os olhos que tinha em mãos eram daquelas pessoas. Não sabia o que haveria daquelas pessoas terem feito para estarem com os lábios de sangue.
Ao lado havia uma carta. Um pedaço de papel, junto de uma espécie de colher bem côncava pontiaguda. Havia também uma caneta.
Ensandecido, Adanaldo leu o trecho escrito, pegou a caneta e escreveu abaixo, como uma assinatura -“morto”.
Sacou da colher e somente imaginou amargurado. Arrancou os próprios olhos. A dor que o consumia o fez mastiga-los gofando, engoliu em seguida apagou. Sobre os outros dois corpos. Sua ultima visão foi o escrito no papel que apreciava a seguinte poesia assinada por Adanaldo:

Para desvirginar o labirinto
Do velho e metafísico Mistério
Comi meus olhos crus no cemitério
Numa antropofagia do faminto
A digestão desse manjar funéreo
Tornado sangue transformou-me o instinto
De humanas impressões visuais que sinto
Das divinas visões do íncola etéreo!
Vestido de hidrogênio incandescente,
Morto!













Apresentaçao

entao almas,
pensemos em conjunto a alusao dos sentidos... pensemos se o sentir pode ser pensado. sinto cheiro, gosto... e os dois parece que me vem ao mesmo instante. sera? a linguagem é o possivel para que o sentido apareça e o sentimento é mai véi doquenoses...
a apropriaçao das linguagens sem politica nem eticas dos sentimentos para o esforço doente de nossa saude literaria é o que vos rogo.
o intuito pragmatico? é ver o logos nossos empapelados. uma materia prima reunida de nossos textos. matriz figurativa de nossos desejos. de nossos anseios em papeisteismos.
deixo meu conto sobre nosso primeiro sentido: o olho.
comecei um outro sobre o Olfato, o cheiro... acabo ele daqui a pouco e posto.
tenho dito.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

efeito drogler

nem tudo que vês está em frente aos olhos.
nem tudo que está em frente aos olhos vês.
enxerga a diferença? clara ou escura?
e também não está sozinha quando dorme desacompanhada em seu quarto.
alguém te observa, com olhos de gato e vontade de cachorro carente ao contrário.
e você se pergunta por que sonha ou pesadela. por que acorda bem disposta ou passa o dia sonambula.
é esse bixo que é mistura de gato e cachorro que não é feito de carne que tem um efeito sobre você.
e quando triste, e recorrer ao superior, tornará o bixo vermelho, como as cores adjacentes ao redor do sol nascente no horizonte que dessa cidade ainda podemos ver.
mas ele ainda será invisível aos olhos.
e as pessoas de olhos claros enxergam mais que as de olhos escuros.
só não perceberam isso ainda pois as de olhos escuros mentem mais. percebe? é claro.
e os olhos mais claros também são mais inocentes.
olhos pretos tiveram que ganhar a vida.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

vitral

Desperta, atrasado e permanece na cama por uns segundos, sentindo na boca o gosto da manhã. A vida lá fora já acontecia e, logo, ele iria se juntar a ela. Pouco a pouco foi acordando: primeiro os pés, os pulmões e finalmente os olhos... Da varanda ele olha as janelas do prédio a frente. De lá, dois homens que também fumam assistem o prédio dele, apontando algo andares acima. Um helicóptero sobrevoa o bairro e uma garota, sensível, não se dá conta. Varre o chão, outra vela; os dias valem muito quando alguém está prestes a morrer. Os papéis permanecerão distribuídos, incertos, em cima da mesa. A lembrança de um encontro. Com as roupas de sempre, o homem sai; está atrasado mas não se importa muito. Martín é editor. O dia fechado, a janela fechada, a cortina fechada, e os pratos, copos e talheres continuam na pia, ainda limpa desde a mudança. Tem algum dinheiro mas isso não chega a ser bom. Seis metros abaixo o ar é mais frio. "Queria cobrir tudo com papel pra não sentir cheiro de nada." Julião. Uma fresta de claridade transpassa o olho mágico que é só um buraco na porta. Primeiro cigarro do dia, primeiro cancêr do dia; apesar de não querer parar, sempre associa o cigarro à doença. Há quem prefira urtigas. Comprou novas pílulas brancas, diferentes daquelas que tomava. Mas de um branco tão igual ao outro, igual também pelo formato, pelo tamanho. Idênticas. Misturou com as de sempre num mesmo pote e todo dia antes de sair coloca uma na boca. A moda e outras tendências determinam a estação. Os óculos escuros também servem para o frio. Hoje ela precisa de mais do que simplesmente passar a mão no corrimão pra sentir a vida. E quando estiver morta vai sentir mais falta disso... Por que ainda vai poder questionar. Ou não. Então não vai sentir falta alguma, não vai sentir nada. Aquela velha história de pensar no que os outros pensam. Ao passar pela lado da mulher, Martín provocou. "Se for pular vai morrer de frio antes mesmo da água entrar no pulmão." A morte persiste, o frio é novidade. O que dói é não haver lágrimas. É pra isso os óculos. A avó é se decompõe na cama e o médico diz que ainda é viva. O pouco dinheiro da conta miserável que a mãe lhe deixou depois do acidente vai aos poucos se esvaindo...indo. Permanece a idéia de que o médico vai manter essa situação. É confortável. É socialmente bem quisto. Ela não tem ninguém. Mas, mesmo sozinhas, grande parte das pessoas não fariam determinadas coisas por uma idéia de humanismo. Não fariam nem mesmo na frente dos seus animais de casa. Ainda na cama e teu bicho vem lhe dar atenção - cuidava de cachorros, agora só gatos. É só fome, bicho infiel... Hoje trata-o bem, mas nos outros dias geralmente enfia-lhe a porrada ou atazana sua vida apertando as carnes do corpo pequeno. Ao sair, dá-lhe comida, água e limpa suas sujeiras. Um gato preto num quarto escuro deixa a leve impressão de que está sempre a sorrir. Talvez prefira estar só. "Café?" ... "Você não parece estar bem." Ele se concentra em olhar o rosto, e adivinhar o buraco dos olhos por trás da lente. "Não chora..." Dói mais. Cinzas tampando o cigarro incandescer, sombra cortando a feixe no buraco mágico e o brilho na lente que esconde o que deveria ser o buraco preto do olho. São 3; os outros só assistem. Um encontro pra hoje, vai chover. Antonela trabalha no grupo de teatro da cidade apenas a alguns meses, mas seus papéis são sempre parecidos. Ela se põem dentro deles, não o contrário. Ele está apaixonado de novo. A conversa durante o café mostra que, casualmente, eles moravam no mesmo prédio; ele dois andares abaixo. Ela o vê como uma grande oportunidade. Mesmo com a chuva forte, ainda teve o cuidado de dizer com calma, pra não ter que repetir. Olhava ele fazer seu pedido de desculpas sem ouvir o que era dito ele se comportava diferente, falando mais baixo, procurando o que olhar. Pensa na sorte quem gosta de se provocar. "Comprei pílulas de farinha do mesmo tamanho, do mesmo formato, da mesma que a outra que não era de farinha, e misturei-as num pote só. Todo dia ao sair de manhã ponho uma na boca. Tem umas que eu percebo que peguei a certa pelo gosto."

terça-feira, 27 de outubro de 2009

SOBRE O QUE NÃO PODE SER VISTO

AE BETINHO, JÁ QUE TU NUM ENTRA, ROUBEI DO TEU BLOG PRA POSTAR...HUF!

Existia um olho que ficava em um cego que ficava em uma praça. Este cego que nunca viu, pois era cego de nascença, afirmava que seu olho esquerdo não lhe pertencia, lhe havia sido presenteado por um importante rei caolho, que por sua vez o tinha herdado de um grande místico hebraico, o qual o tinha encontrado duzentos anos antes, em baixo de uma pedra no Egito.No entanto era um olho, e como qualquer outro olho, olhava. O que diferenciava este olho de qualquer outro olho é o que este olho via. Talvez por uma grande maldição agregada ao olho ou apenas uma grande ironia do destino, a única coisa que este olho podia ver era justamente aquilo que não podia ser visto.O cego, como era cego, não podia ver nem mesmo aquilo o que não podia ser visto. Mas ele sempre sabia que o olho estava olhando o que não era para ser olhado. Assim o cego sempre praguejava:_Maldito olho! Já vai começar a olhar o que não é para ser olhado. Ainda bem que sou cego. Porque se não estaríamos perdidos, pois o que não pode ser visto estaria sendo visto e o mundo inteiro viraria um grande caos. Que fardo pesado este que eu tenho que carregar!Por sua vez o olho também odiava o cego. Já que este passava os seus dias sentado na mesma praça e nunca proporcionava ao olho novas paisagens para que o olho procurasse nelas o que não podia ser visto. O olho, assim, também praguejava o cego:_Maldito cego, passa todos os seus dias e noites nesta mesma maldita praça, nunca me proporciona novas possibilidades de ver o que não se pode ver. Ver o que não pode ser visto em novos horizontes, diferentes a cada dia. Ver o que não se pode ver em situações diversas, em corpos diversos. Ver o que não se pode ver em movimento... Como eu gostaria de ver o que não se pode ver andando de moto... Destino desgraçado! Fez-me vir a habitar justamente a órbita ocular de um cego! Eu aqui me esforçado para ver tudo aquilo que não pode ser visto e não tenho com quem compartilhar, vivo neste mundo solitário e tedioso onde quase todas as coisas que não podem ser vistas eu já vi e tudo isso apenas para manter a ordem em um mundo onde as coisas mais importantes para serem vistas são justamente aquelas que não se pode ver... Que sina terrível esta de ser o olho de um cego. Quarenta anos depois, o olho já tinha visto tudo o que não podia ser visto a partir daquela praça, já tinha visto o que não podia ser visto das pedras da praça, já tinha visto o que não podia ser visto das árvores daquele local, já tinha visto o que não podia ser visto dos bancos da praça, do céu, do dia e da noite, das casas, do ar, o olho já tinha visto tudo o que não se podia ver. Até mesmo o que não se podia ver do cego que o portava, inclusive por dentro, pois quando o cego dormia o olho aproveitava para dar uma espiadinha no que não podia ser visto por dentro do cego.Foi quando o cego morreu. Antes de morrer, agonizando e se retorcendo no chão, uma grande felicidade o invadia, pois ele sabia que os seus longos anos de guardião do terrível olho estavam por terminar. No entanto ele também sabia que tinha que resistir, pois não podia morrer sem passar seu fardo para um próximo na linha de sucessão, aquela era a sina do olho, ele deveria ser passado adiante e ninguém poderia olhar por ele. Mas quem? Perguntava-se o cego, quem seria digno de tal sina? Com a agonia da morte cada vez mais próxima o cego decidiu optar pelo destino, entregaria o olho ao primeiro que viesse em seu socorro. Assim começou a gritar por ajuda, o primeiro a aparecer foi um jovem menino que passava por ali:_ O senhor necessita de ajuda? Vou chamar ajuda!Disse o menino. Já virando o rosto buscando não ver a cena daquele pobre moribundo agonizando._ Não! Volte!Gritou o cego com suas últimas forças._ Menino, pobre menino, o destino lhe enviou para esta minha última hora. Tenho algo para lhe dar. Vê este meu olho esquerdo?O menino acenou afirmativamente com a cabeça._Vê?!Insistiu o cego, já que este não tinha como ter visto o gesto do garoto._Sim! Eu vejo!Respondeu o garoto já bastante atordoado pelos fatos._ É uma pena que veja... Respondeu o cego. _Esperava que o destino me enviasse alguém cego para que eu pudesse passar meu fardo, isso apenas aumentará o tamanho do fardo que passo adiante. Pois bem, este meu olho esquerdo não é um olho qualquer ele é um olho que vem sendo passado a gerações, e você garoto! Será o próximo guardião do olho, este olho é um olho que vê tudo aquilo que não pode ser visto, portanto, preste muita atenção! Nunca, nunca olhe por este olho porque o que não pode ser visto é para não ser visto e assim deve continuar, entendeu garoto? Caso você olhe por este olho o que não pode ser visto terá sido visto e o mundo inteiro entrará em um caos completo!Com suas últimas forças, antes de morrer, o cego arrancou seu olho esquerdo e entregou para o menino. O olho, antes disso nem tinha prestado muita atenção no menino, pois estava fortemente entretido vendo aquilo que não podia ser visto da morte do cego.O menino com o olho em mãos e as pesadas palavras do cego em sua mente correu para casa se esquecendo até mesmo de tentar socorrer o cadáver que ali jazia. Chegando rapidamente em casa, o menino entrou em seu quarto, trancou a porta, fechou as janelas e olhou para o olho, no mesmo momento o olho olhou firmemente para tudo aquilo que não podia ser visto no olho daquele jovem menino. Eles ficaram ali por horas: o menino olhando para o olho e o olho olhando para o menino. Foi Quando o menino em um súbito movimento, motivado por uma grande curiosidade que tomava conta de seu corpo inteiro, principalmente de seus olhos, pegou o olho e deixando de lado todas as advertências do cego, olhou por ele.Depois desse dia o menino, o olho e o mundo nunca mais foram os mesmos, pois finalmente tudo aquilo o que não podia ser visto, foi visto, e assim se tornando outra coisa que não aquilo o que não pode ser visto. Logo, tudo foi outra coisa que não a coisa mesma e sim algo diferente.Fim.

MAS QUE VERGONHA

KD VCS SEUS TRAMBIQUEIRO DE ALAMBIQUE?!?!?

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

AE

ENTÃO AE
VAMO AE

Olhonomalia ou vistas viscerais

Sendo assim, que toda anomalia é um debruçar-se eterno a uma singular estranheza, não se podia nem ao menos imaginar o horizonte que ele vislumbrava. O olho-furúnculo. Impossível, retrucavam as verdades. Mas o corpo estava mais do que certo. O olho estava deslocado. Achatado entre a vesícula e o pâncreas. Resignado entre as paredes macias dos órgãos o olho via, mas o que ele via? Nada certo, retiraremos em três dias, serão necessários alguns testes, mas tudo acontecerá bem. Mas o olho já havia se acostumado em olhar a cavalar corrida dos fluidos, as pulsões macias de contornos gelatinosos, os gazes endurecidos e estufados, a respiração embalando todas as cadências. Não era de todo o mal. Passava horas com os olhos fechados, para ver com o único olho que não se podia fechar nunca. Às vezes lacrimejava nesse avesso que era sua condição. Apenas conhecer uma embaraço todo feito de uma matéria mole, tudo que vê parece frágil, extremamente frágil. O olho constata: não parece, é. O olho de fora era espaço longo, dimensões plenas, um quadro renascentista, Gustave Coubert menos desfocado.O olho de dentro feito de composições arriscadas, texturas desagradáveis, líquidos animados, estranhas dobras, Francis Bacon de cores mais opacas talvez. O cérebro então se acostumou entre duas imagens intersectadas: um realismo pleno e um misto de surrealismo com abstracionismo escatológico. Os órgãos nunca estiveram organizados. O olho-possível. Todos, assombrados pelo o que esse olho via, declararam-no inquilino indesejável, desagradável, brusco e até mesmo pornográfico. Trataram de revelar que qualquer imagem que venha de uma tal intimidade cotidiana com a interioridade é imoral. Tudo bem, o olho-subversivo. Nada poderia ser enunciado que fosse referido àquela visão. Era tempo de ferramentas poucas, máquinas incapazes de conhecer o que o olho via. Era somente ele que conhecia a organicidade vinda desses movimentos abdominais. Parece uma vagina embrulhada. Não, uma boca de mucosa amarelada, um bloco espesso púrpura, porosidade sólida, esponja amarga. Só pode estar louco. Palavras sem sentido, o olho está louco. Ela sabe do fora conhecendo o mais puro dentro. Quando o dia ferozmente arrebatava de súbito sua realidade crua, eram semi-amarelados os fluxos de trocas demasiadas, viscosidade colidindo com algumas partes flutuantes, o tempo era delicado frente a uma rapidez de oxigênio. Havia também, com algumas dormências excitantes, um tremer intenso vindo de alguma camada dura comprimida entre pequenas bolas engorduradas e o epitélio, tudo parecia descontrair-se numa suave leveza após os ataques repentinos e turbulentos. Constatando assim, o inconstatável, era mais do que se poderia ver meramente. Era conhecer todo aquele trânsito infinito de partes movediças para algo conhecer. Que coisa é essa, todos se perguntavam, que coisa é essa? O olho sabe, é corpo funcionando sem nenhuma paragem, até mesmo o mais puro repouso é já por si só um pleno movimento. O olho-corpo. Não haveria de ficar assim. O olho conhecia demais então, e para se conhecer demais o olho deve estar localizado no cérebro, na cabeça, não nessa parafernália de engrenagens que faz tudo virar merda. O olho via o que não pode ser visto e assim somente ele poderia conhecer uma outra face do que se faz o conhecer. Mas não se poderia entender dessa forma do que se tratava. O olho declarava: vejo asperezas disformes, algumas flutuam e se apegam a compartimentos que podem mudar brevemente de forma, concluindo mais uma entrada, ou uma saída, parecem corredores gordos de alguns muitos vestígios. Não pode ser, não pode ser. Não há funções definidas, estruturas bem delimitadas, retas, rotas, rumos? O olho respondia: me parece mais um caos feito de livres associações infinitas secretando-se a si mesmo a todo instante. O olho-turbilhão. Desamparado pela falta de linguagem cabível para a visão que a ciência até então apenas supunha, o olho foi convidado para algo mais prático e objetivo. Desenharia os fluxos que enxergava para um possível manual de anatomia do trânsito digestivo humano. Francis Bancon com traços de Picasso. Não agradou aos olhares especialistas, realistas, cientistas. O olho-enxerto. Então com a complexidade rasgada do material de normalidade entendido pela linguagem, o olho virou excremento, mais do que anomalia, agora era margem achatada pela falta de compreensão. Mas se ele era o pus indiscreto que todos acabavam por ignorar, sabia somente ele da incoerência que enxergava. Não poderia ser retratado, o quadro das carências de algo menos limitado era demasiado nos homens da verdade. Ele era dobra porque compunha no seu espremido plano um horizonte curvado sobre si mesmo. O asco perfeito, o que todos se perguntavam, mas nunca conseguiriam ver de perto. E mesmo se vissem, o olho não estava certo se suportariam as imagens cruas sem se deixar levar pela náusea. O olho-invaginado. Olho cápsula boiando como um intruso nos órgãos. Ele não havia sido convidado, mas estava lá, visita desagradável. Inconveniente. Quase ausente. Perdia-se entre a vontade certa de apenas continuar olhando, afinal, era sua função definida, e entre as alegorias visuais que nunca se davam por satisfeita pelos outros. Refletiu-se por um instante e percebera que a anomalia de sua vista era o que o homem mesmo carregava diariamente com toda a volúpia certa de normalidade nas vísceras do cotidiano. O que era anormal então? O que o olho via ou o local em que ele se encontrava ? Perguntara aos outros olhos. Eles não saberiam informar se o que há de anormal é o próprio corpo humano , ou se poderia ser assim , uma espécie de deslocamento visionário, onde os órgãos se confundem e o olho acaba por perder sua origem satisfatória: a proximidade com o cérebro. O transtorno e a falta de obviedade vinda dos olhares humanos o encarceravam ainda mais para sua interioridade vista de perto, com os olhos de quem conhece o mais profundo e sabe que o que nos compõe não pode ser legitimado por uma ou outra fantasia especulativa que vinha de uma certa concepção conspirologica. A anormalidade são os outros, o olho digeria. Alguns até mesmo chegaram a declarar que o que o olho via era sua alma, e se ele estava a ver tantas atrocidades era preciso se salvar logo. O olho ria. Era já de gargalhadas as possíveis interpretações para todos os seus movimentos.Observar o visto do olhar virado ao avesso, talvez eles não fossem capazes , talvez eles não estivessem preparados, talvez. Como poderia perdurar com somente uma impressão se sua condição já o fazia encarar as coisas sob aos menos, dois pontos de VISTA, contrários ou não, mas possivelmente conectados, já que às vezes preferiria olhar para os seus movimentos interiores para saber o que acontecia no fora, do que meramente constatar a realidade. Já que conhecia as circunstâncias da locomoção diária de seus gazes e de seus resíduos que se faziam de tal ou tal maneira diante de cada momento, horizonte, compreensão. Já que os olhares eram feitos num acordo mútuo para a conexão de uma certa massa inconstante que o atravessava, toda as arestas do desejo lhe era permitido vislumbrar. Se cada olho poderia enxergar o processo ininterrupto de cada horizonte que lhe é permitido conceber como um todo que se quebra em partes microscópicas, como uma imagem 3D, não um achatamento banal das possibilidades, ele se corrompia para enxergar todas as faces que compõem uma imagem. Por mais aparentemente plana, toda a paisagem obtinha o seu avesso, toda a situação sua nova face, toda a particularidade uma nova incerteza. Mas não se podia ser exato assim, não se podia conceber uma verdade, nem uma resposta estática, sem encarar somente um lado das coisas, um lado das circunstâncias ditadas como certas e propriamente adequadas para um brusco ofuscamento das transparências, num ridículo achatamento banal de uma cartesiana linha somente........
Um certo dia, num acontecimento inédito que não se sabe ao certo a data ou o local, mas realizado no ambiente de um grande fluxo de olhares,num movimento repentino de quem somente guarda discretamente todas as angústias num silêncio resguardado porém atormentado, o olho grita num misto de expelir-se para fora com uma vontade louca de um enclausuramento extremo. Um botar-se para fora e dirigir-se para dentro é efetuado numa mesma velocidade e intensidade que os dois olhos que ocupam a proximidade com a massa cefálica se arregalam para uma disfunção inabitual e agora sim, porque não, anormal. As microveias dos olhos se rompem com a dor que envolvem sua dilatação e avançam sobra a gelatina branca num lento e horripilante avermelhamento do globo ocular. Seus olhos tornam-se sangue, chora-se num pranto satírico, já não se sabe se o grito é de dor ou de alegria, uma risada macabra, um gemido extasiado ou uma longa e ligeira sensação de conforto apenas. Não era questão de milagre chorar sangue, era somente o homem vivo rompendo o limite na sua extensão máxima do suportável ou do insuportável, ele agora, talvez, apenas começasse a ver somente o dentro para compreender melhor assim a visceralidade do fora de cada momento.
carol