sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

soarseando

“pequenas variações de altura ou de timbre
alteram as consistências das notas; e, quanto mais de perto se ouve, mais riquezas se encontra. É como uma vida subaquática, que a gente precisa mergulhar pra conhecer” .................... para poder emergir

timbre de possível

Sempre silencioso ou apenas quieto. Porque dizer que alguém é silêncio pode trazer a figura do sufoco que não consegue doar-se à natureza de uma linguagem e assim, ao outro. Mas não era feito disso. Era de um som rasteiro e pegajoso que, quem o encontrasse, saberia da sinfonia que exige sua presença . ruído baixo de frequência arrebatada por estrondoso som.

Tom

Jazz. O que acontece com o pensamento quando houve jazz? ....me perguntei. Sem saber senti que pensamento é corpo e corpo é a hipótese audível do pensamento. Entende? Ouvidos em cada poro epitelial. Porque , porque pensamento não é linguagem, porque a escuta é acessível a todos os membros do corpo. Escuta é linguagem? Pensamento não é linguagem, é escuta, repito. É escutar e fazer escutar. E ouvido não é só escuta, assim como pensamento não é só pensamento e tudo .........chega!! você não disse que ia parar de cheirar ? Eu teria dito que sim......


Timbre de dança
Devagar talvez, como se andasse terno entre a maioria apressada que carregava sem saber um sobressalto muscular nas costas. Leve mas firme. Nunca achei que fosse apenas solicitude, desconfiei desde o inicio que por ali escorriam passagens frenéticas de um solo de bateria, trompete enlouquecido, Charles Mingus carrega precisão e fúria nos dedos. Não sei. Tudo o que posso contar aqui sobre ele se passa por subjetivas compreensões de uma presença estranha e suave. Entendam que não é somente isso , é mais ´poliforme e deslocado também. Quando de súbito uma presença invade o ambiente sem nada a oferecer, mas já oferecendo o contágio de sua passagem que apenas passa. O reconhecimento mudo às vezes faz dele um leve vento que sacode os brincos da menina ao lado, exigindo que ao menos uma faísca de sua espinha seja tocada. Mas não é isso, porque isso acho brega, e não quero fazer ele com contornos bregas, mas com arremates possíveis. E só .

Intensidade

Não entendo de música, mas de danças silenciosas. Não se faz som sem a necessidade louca de pensar dançando . Som é mecânica do gesto. E liberto de si é puro movimento.sim , eu estou procurando a matéria de uma imaterialidade. Eu procuro e pergunto e todos me respondem a mesma coisa, eu vou cartografando as possíveis entradas, mas saio escondido pra não fazer barulho já o fazendo. O peito pulsa ,o coração bombeia a força necessária de um limite próximo, sabendo-se que irá chegar o momento de uma compreensão inaudita as costelas apenas sustentam a pulsação de um frenesi dançante. Magia, penso em magia, e tenho que lembrar de todos os rituais em que não fui para que as besteiras de hoje pesem com seus murmurinhos que não se deixam entranhar totalmente. Eu sei que o pensamento é ato. Somente disso eu sei. Aí abro a cadência filosófica que paira hoje como uma estranha moda de compreender o mundo e reflito sendo ordinariamente conceitual, se é daquilo mesmo que me passa música por entre o corpo seria então não o balbucio sistemático mas outro, outro........ Não é nada, a hipótese de falar sobre recrimina do que se fala. Eu quero o silêncio manuseado até o seu transbordamento total, quero o enxerto de uma ópera abstrata da matéria. Acho que nada posso quando tento assim, pois não seria entendível, mas não é para ser e se fosse , já que é, estaríamos diferentes do que o que se faz nesse agora.

Ritmo

Afinal você escuta o pensamento, eu escuto só o pensamento, a única coisa escutável é o pensamento e quando é ele música é porque dança, quando palavra é porque faz música , quando silêncio é a eterna produção de fazer-se preencher para assim esvaziar. Tudo bem que eu queria antes que fosse alguma coisa palpável , o alimento secreto de uma possível linha, antes queria o jorro imediato de quem sabe que faz fazendo-o. Era tudo essa coisa imprevisível e incapturável e eu querendo não lhe dar um nome , mas achar a sua minúscula composição . Trazendo-me para esse desastroso relatório de tentativas estranhamente peculiares....Você não sabe do que estou falando, nunca saberá. Tudo começou então num dia exagerado chamado verbo-ruído. Eu deslocado obviamente no meu horário comercial em que me são enjauladas espécies humanas totalmente diferentes, que tem que se aturar e ainda fingir que estão parcialmente de acordo com as existência abominantes que perduram por ali e que devem, que devem, que sempre devem...alguma coisa. Nós sentimos nojo um dos outros e escondemos isso só para não nos matarmos em meio à burocracia da rotina. Compartilhamos de pensamentos espaçados por coisas banais e falamos besteiras casuais. Somos o lixo de uma empresa podre, somos todos.....Mas a questão é, diferente daquele entrave cotidiano que provoca a epifania de quem subitamente vê a poesia da realidade, eu vi o susto da real convergência das coisas e dos fatos e o pior, eu não vi, eu ouvi.

Concerto

Catarina é feia, magra e sintática, desses elementos que falam pouco, mas que quando fala se solta em vergonhas sendo superadas e um leve riso babaca de quem pensa estar enfim conseguindo sair do seu casulo-mundo. A voz é fina de tão tímida e de tão baixa é quase imperceptível e ao mesmo tempo insuportável. Catarina é pobre de vida e acostumada com o que tem. Mas diferente da pena que eu poderia estar sentindo, tenho é nojo mesmo, até gosto de observá-la para instigar o meu instinto de náusea à espécie humana. O nojo personalizado. Bom, temos também a aventura hipócrita desse gordo chamado Alcides, que de farto só tem a barriga e os olhos que passam sempre perseguindo alguma bunda alheia. Cheiro de ovo, a pornografia em alguma janela minimizada do seu computador, a coluna em pânico curvado acentuando a decadência. Digo-lhes aqui que sua voz é grave e incisiva, se torna em alguns momentos uma bela entonação, mas diria que isso é para ouvidos raros que apenas captam segundos de potência num horizonte feito de inférteis possibilidades. E poderia aqui lhes mostrar as características mais pobres que podem constituir a humanidade em termos de adjetivos, mas creio que iriam me faltar as palavras e eu teria que repetir, pois então ficamos por aqui.

Tempo

Eu aqui e eu aqui.. Você já reparou que atualmente quase ninguém anda por aí sem seu MP3 para não ter que ouvir e assim , não falar com ninguém? Que escutando algo que seja do seu próprio gosto estaria mais confortável, mais perto de casa, mais intimamente conectado consigo mesmo e menos invadido pelo outro ,ou...ou apenas com vontade ouvir música. Mas nos ensurdecemos, os ouvidos não tem pálpebras me disse um dia um músico das sombras. Eu dilatei as orelhas porque meu labirinto estava achatado e submisso. Catarina hoje compõe um visual mais brega do que o habitual, estou entediado. Tudo voltara ao normal , tudo sempre volta ao normal.

Sinfonia

Peguei um café, contornei as mesas com passos de bailarino, sentei-me. Odeio açúcar. Me veio, me veio como quem chega, como quem sai, como quem vai......me veio uma parte hipotética de minhas disfunções do pensamento , eu estava longe de alcançar uma finalidade porque alcançara inevitavelmente o meio, e eu estava lá....lá, bem longe daqui ou de algum conforto imediato, eu estava no furo de um pensamento que chega sem porque. Eu disse, eu não disse, eu suei, eu estremeci, eu ouvi. Eu ouvi a onda que me crivava a permanecer inerte, eu ouvi a paralisia dos meus membros, a ruptura da saliva, a voz vindo do fundo, eu ouvi o peido que, hesitante, não saiu. Eu ouvi Catarina baixa e soluçando, eu ouvi as pontas das unhas tocando o teclado, eu ouvi os cérebros amassados de contabilidade, a suspeita da copeira de que havia sido roubada, a ereção travada de Alcides. E eu não precisava dos olhos para pensar o meu nojo, porque diferente agora da nausea, ele era um acumulo de degradações audíveis. A escuta do nojo é o odor que se esvai para entrar o que simplesmente não podemos aceitar como sendo sentido pronto, mas como particularidade de uma brutalidade de recortes de sons minusculos...infinitamente minusculos. A agonia de um som que ainda iria sair se mostrou atacando-me sorrateiro, apenas o esboço do ruído já era a vulgaridade exacerbada de uma disfunção agudamente sonora.


Melodia

Amargurado talvez, embriagado de vez, tomado ....... A rima me desgasta. O tempo não permite coisas cálidas, austeras ou infinitamente melosas. Eu tinha nas mãos o conteúdo inaudível de uma solidez imperpetuável. Devagar alentado ou apenas subvertendo os passos, eu senti que a concentração é apenas a lubrificação do ouvido. Poderia sentar-me e ficar de coluna reta a olhar para a tela achatada do computador e me dissolver em orgasmos infinitamente peculiares do orifício resultado som. Não se faz pensamento sem música, audição pensada é melodia acessada para deglutir o resultado do improviso de tuas meticulosas originalidades. Somos instrumentos de sintomáticos estágios de putrefação avançada ou não. Sei que na lucidez sufocante daquele que ouve o silêncio se explicita a liberdade da loucura possível. Em labirintos da rotina a escuta á a captura certa de um deserto que se move de vento. Aliás, pensamento é vento ? É porque quando vem, apenas chega e modifica o plano em que se encontram as coisas, e logo foge arredio livre debatendo-se em outros e novos lugares. Dunas são cumes temporários. O agudo é apenas o grave destendido. Te digo do tempo.


Contra tempo

Porque eu não estou parado. ....perco a suavidade da uma certa essencia assim que verifico o inalcançável e não consigo chegar a sinfonia que almejo. E ouço vindo a borda de uma dança feita por um membro inventado que desgastado não pode. Eu penso ligeiro, escancarado e levemente agoniado, no tédio que me trouxe por estar , digamos assim, um pouco surdo. Surdo de toda a destreza que paira entre os deslizamentos da realidade, nas finas camadas que compõem algo chamado mundo. A natureza dita seu sonoro cobre leve azul esfumaçado e entre as parabólicas condensadas em energia canalizada, nada posso. Invento o que ...... invento uma dança imóvel que sincera sucumbe logo feita distração abobada de vida vinda. Que desgaste , logo penso. E de nada surge o efeito imediato para a fissura bruta perpetuada em excessos espasmódicos de um cansaço mudo, porque além de surdo não vomita.Eu poderia falar que os ruídos são fantasmas do pensamento que quando emerge som constroem fundos orifícios horizontais de uma longa rota rumo aos sentidos. A imagem só vale se for cantada e por isso mesmo dançada.
Harmonia
Eu signifiquei o resultado extasiado e encolhido em si mesmo para a grande aventura da abstração. E não pense que acho realmente que pensamento é abstração, pois se fosse, não correríamos o grande risco de alcançar a mais pura realidade. De abstrações entendo o verme que congelado finca e fica entre as sinapses neurais no seu atordoado despenteio. Da concretude infinita de um caso saboreio o rasgo torto da dissolução da língua. Eu tive que percorrer a agudez de um frenesi e me resguardar a mera cadeira funcional que me acolhe diariamente. Sinto que o resultado íngreme de mesu distúrios inconsenquentes se tornaram, aos olhares alheios, incoerentes. Já que bailar por pensar se tornou a pulsação óbvia do que almejava o fato. Eu soquei as tortas planícies que captam a figura frouxa de coisas sensatas e sorrateiramente normalizadas. Quando me tragam de bom dia arrebento com a frase sincera feita de gestos musicais. Diriam hermético? Louco? Eu diria extasiado pela descoberta solitária de um vestígio que não pretende rota, mas um sincero rumo ao nada. Pensar é jogar-se no precipício do sentido vibrador. Afinal, de que são feitas as coisas? De imagens possivelmente trabalhadas na sua diferenciação por semelhança?. Eu cansei de aventuras hipócritas.Eu levei até a borda do corpo o pensamento, eu levei o som até o gesto e nada me escapa porque tudo sempre escapa e eu me deixo passar nesse tudo.

Ópera

Sonhei com alguém tornado linguagem simples de balbucios extrovertidos que narram as possíveis entradas do pensar. Entre roseiras, amoeiras e toscos entulhos ele me dizia sem dizer que estava tudo certo e que tudo que me fugira do conrtole era apenas o controle se tornando mais aderente e ardente. Nada me faria retornar ao caldo existencial em que me encontrara. No momento tive medo, pois nos últimos dias ando gostando desse estado dilatado da escuta, mas as vezes me parece que posso ir mais além sempre e
se fosse mais, poderia encontrar, simplesmente, a morte. E ela te preocupa? Ele me pergunta. Eu respondo um instantâneo sim, ele me faz cara de azedo e se ocupa longe com alguma parte de sua composição de ruídos. Ele se vai. E penso ainda não estar realmente no limite do som que é o próprio pensamento evacuando a vida. Depois saculejo frente a uma estranheza que me antecipa ao próximo passo e raro, forte e tênue vago entre uma multidão de febris mulheres acompanhadas pela desenvoltura descomunhas de suas ancas dançadas a partir de suspiros longos e pés cravados na terra. Soei espanto, como quem é tomado pela fúria frenética de algo desconhecidamente belo e instintivamente próximo. Pude pensar em sufoco, em sufoco que se torna esvaziado de si. Não era alívio de um sufoco, mas o sufoco mesmo pairando com a velocidade de um murro grosso e eficaz. Pude então colocar entre as rameiras os meus dedos e andar como em uma marcha, na cadência de não se sabe o que, mas na cadência...........

Eletroacústica

Tens do tato amplitude tosca ruindo vértices de mergulhos que voltam retornando no que sempre só volta porque bate de frente ao ruminar ocasional da fonte vinda. Eu posso porque poder do pó é podridão porosa. Me faço frase pela forma de suas formigantes forças de fluidos focos fofofofofofof. Atrás de mim o fofo finge ser foto e eu escancaro o forte de sua fofura de mil demônios. Não tem exagero no que pula pulsa púrpuras perucas de avelã. Meu resultado finge e esfinge decaída por aglomerados cintilantes sai verruga do cerebelo. Eu diria penso existo nas coisas que fazem o que seja o pensamento pensado sem antes ter achado o grau fincado entre clausuras, usuras, fulguras, porte largo, porque nada posso com o porque se tens em vias de um resultado, há palavras que eu aboli do vocabulário porque elas simplesmente não cabem ao sonoro ruído emancipado antes de ser chacoalhado em matemáticas afim de compactuar com a dimensão burocrática do pensar, eu seria se colocassem o ponto incisivo da combustão, eu seria o não, pois já previ o que não se faz dentro do que é o fora recoberto e feito luxo de toda a quinquilharia pragmática estocada nas fontes de um dito conhecimento, alçando a matéria mole do pensar escuto o tudo para não apenas relatar mas dimensionar amplitude da sinfonia som. Eu só escutei e não permiti parar. E si morri foi para simplesmente escutar.


Timbre de silêncio

Mas ele , por força de contentamento de quem sabe se abrir ao fundo fungo da loucura, pairou como bailarino macabro. Diriam que de seus relatos restam fontes de um diagnosticado grau de uma patologia certa. Eu senti sua presença, a escuta quase diabólica que o fazia pensar, a busca insaciável pelo que não se pode chegar. Mas não digo aqui que posso lidar com a sua proximidade de uma forma totalmente confortável, mas ao invés disso, posso lhes afirmar que era incisivamente arrebatadora. E de todas suas buscas, calcadas em respirações mais torneadas e pulsações mais alongadas, o fim lhes restou enclausurado entre as normas de um silêncio grave, e diriam os de jaleco: gravíssimo. Se solitário lhe bastasse o som, não acabaria então enforcado por entre seus lençóis abarrotados. Precisava era do caos que sucumbe os nervos no turbilhão aceso de todas as figuras do ruído. Era tenro e fez-se mudo quando de vômito era só o silêncio cru que podia alimentá-lo.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

lágrima

me faz falta a sua simples existência aqui ao lado.
a possibilidade de te encontrar nas próximas horas...
às vezes eu sinto um frio quando penso em ficar sem você.
sem mim mesmo eu aturaria, e talvez até tudo se saísse melhor.
mas pensar em te perder faria eu me deslocar do palco
mesmo sem parar de acreditar em nada.
só em choque.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

mais de um mÊs e nada... as pessoas ainda estão aí?
estou com alguns compromissos entediados... não quero participar de fluidez coaguladas... quero a tendência ao espectro da sede do desejo das coisas!
torno pública minha saída do grupo.

nada pessoal

um abraço

ps: se alguém ainda pilhar de seguir o projeto me avisa particularmente. já tenho os 5 sentidos escritos...
inicio outro projeto agora de superação sensitiva... estou escrevendo um conto de um cara que empesteia as narinas de todos com o odor fétido das unhas... imposições sensitivas... arrogâncias de nossas fragâncias.

ADEUS

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O caso de Ayupe

considero pronto este conto:
O caso de Ayupe
1.


De repente a agua invadiu os pulmoes de Ayupi que por ter visto os mergulhadores ao longe em auto mar jogando-se de costas da lancha, quis fazer o mesmo com sua pequena balsa que ganhou de presente do Edin na festa, quando ainda o tempo para ele media seis anos de idade.
Saiu cedo de casa que ladeava o que ainda restou de belo do litoral brasileiro, o sul do estado de Joao Pessoa. Uma cabana de taipa feita com esmero para aguentar chuvarada; com bananeiras, umas tres; pé de brenfa que para cada canto tem nome diferente, areia fina, refinada e grama de praia seca com seis, sete palmeiras de coqueiro. A esquerda, um rio que aparece em natureza ousando uma via de acesso ao mar. A frente, o embaralhamento confuso dos galhos cipos da mata atlantica. A direita, um promissor pomar recem produzido. Atras, o infinito horizonte do oceano que Ayupe alvejava.
2.
Edin, era um senhor muito aprumado, como dizem, direito. Vivia na cabana com Ayupi e Ionà. Gozava de seus pescados para conseguir dinheiro e contribuia na sobrevivencia dos tres já faz seis anos. Vinha de longe a cavalo, quando viu a cabana de Ningà se desmanchando em labaredas, a custo de um vizinho ter entrado com um Jipe no azar das circunstancias, onde Ningà mantinha seu botijao de gas. Foi um estouro e tanto, disse Ayupe, que so se lembra disso vagamente, pois era muito pequeno e escutou o espalhafato, enquanto era ninado por Ningà que viu de longe a chama e saiu correndo, deixando Ayupi aos cuidados de Ionà.
Não se sabe o espirito que tomou Ningà para ter ela entrado determinada em meio as chamas. Ionà diz que Ningà sabia o que buscava. Seguramente algo importante pra ter arriscado a propria vida e no excesso do fogo se deixar findar. Iona chorava com Ayupe no colo, quando Edin chegou e disse com ar de autoridade que não havia mais nada o que fazer naquela situaçao a não ser esperar o fogo ser queimado pelo vento ate acabar sua fonte de alimento: a cabana, o Jipe e, por ventura, o vizinho e Ningà, mae de Ayupi.
3.
Pela manha, Iona e Ayupi adormeciam sob o teto de palma e taipa feito por Edin para resguardo do sereno e do vento. O mesmo já havia ido ate a estrada que contava distancia de uns 3km do local para conseguir ajuda; acionar os bombeiros. Mas, nada. Nenhuma alma passeava e o tempo corria a sexta hora do dia. Percorreu a estrada ate dar de vista com um pequeno vilarejo, onde um senhor ofereceu seu telefone para pedir socorro. Em uma venda de bebidas conseguiram o numero dos bombeiros e, Ionà despertou, quando já haviam chegado com Edin há algum tempo e prestado o socorro que lhes alcançava.
Fiquem aqui, voltarei com homens para ajudar na construçao da nova cabana para voces. Sinto muito. Precisamos ser rapidos, deixemos as apresentaçoes para depois. Este garoto precisa de um lar. Foram as palavras de Edin para Iona que com os olhos umidos de choro fez que sim com a cabeça e foi ao encontro de Ayupi que ainda adormecia.
4.
Edin não fez caso de ir na cidade. Achou que estava de melhor tamanho buscar companheiros no vilarejo, por crer que seriam homens mais sensiveis às fatalidades e, não homens da cidade que achariam, a seu ver, normal o perverso pelo seu excesso uso e abuso gratuito.
Quando encontrou o primeiro cabra disposto a ajudar já estava cansado de procurar e ficou so um homem mesmo, Reginaldo, vulgo Patola. Cabeça feita. Maluco que anda pela noite. Que gosta da noite. Que gosta de se envolver com açoes rituais na floresta, junto com outros de mesma estirpe dada aos espiritos e a natureza. Edin não sabia disso. Soube depois, quando esperou por tempo corrido Ayupe, que por sua esquisita enfermidade foi dado a fazer um trabalho, um rito, no intuito de sarar, num canto la pelo meio do mato com o Patola, certo dia.
Reginaldo ficou com os tres, somando ate o fim da edificaçao da cabana. Foi ele quem fez o piso batido de entulho, rocha de praia e cal. Adorava levar Ayupe na praia dos pescadores que saiam cedo rumo ao mar em suas jangadas e canoas, por conta de ver o encantamento do garoto pelo infinito, pela solidao morbida que tras a ideia do infinito.
5.
Na tarde de homenagem à Ninga, veio algumas de suas conhecidas da cidade.
Vieram rogar graças, o feirante que passeava toda a manha na borda da praia vendendo leite e, sua companheira que compartilhava os ritos com o Patola.
Nesse dia, Ayupe somava um ano e meio e em sua cabeça dislumbrada de criança, sentiu a perda materna como algo extremamente inconcebivel. Não teve espasmos histericos, nem chorava magoado ou triste pelos cantos. Mas, aquilo nunca lhe entrou na cabeça. Para ele, sua mae não tinha findado. Nisso, contorcia-se num sentimento maluco: Ela ainda vive!
Ayupe conversava, brincava, sorria, pulava como o que parece comum nas crianças mas, seu temperamento agudo o levava a dormir todos os dias nos cantos dos quartos da cabana. Por centenas de vezes aconteceu de Iona encontrar Ayupe com a manta de dormir deitado, dormindo pelos cantos da cabana. Isso se repetiu ate entao, quando no passo dessa historia ele soma seis anos de idade e sofre de uma agonia cabulosa: é incapaz de respirar pelo nariz, assim não sente o cheiro que as coisas tem.
O primeiro a saber, como o primeiro a ajudar, foi Regilnaldo. Ayupe, no dia da festa de seus seis anos, gritava enlouquecido com tais comentarios sobre os aromas dos doces e dos refrigerantes; fala que por que diabos tinha que ser introduzida por Iona, quando sobre o bolo de confeito respirou profundamente o sabor da guloseima.
Não foi dito, mas Iona soma doze anos, quando no incendio da cabana somava seis... temos aqui um caso que merece estudo.
Soube que Edin foi quem procurou Rosalda, conhecida de Ninga, ainda ausente. Ela lhe disse que quem fazia esse retorno do sentido era Regilnaldo.
Outro caso foi uma garotinha que não ligava uma coisa com outra, sabe? Alguns psicologistas fisiologicos transeuntes disseram que era outro algum tipo de atraso mental pelo mau desenvolvimentos da celulas cerebrais. Diz que Regilnaldo uma vez raptou essa criança na noite e sumiu com ela no mato por tres meses. O retorno foi que a menina demonstrou ligar coisa com algo. Todos acharam otimo e, de fato vem daí a fama de Regilnaldo curandeiro. O interrogaram e ele afirmou que não havia feito nada, somente que na noite do sequestro, os dois comeram meia rodela de abacaxi.
Edin ficou satisfeito com isso e quase que obrigou Regilnaldo que fizesse o mesmo trabalho com Ayupe. Regilnado inespressivo lhe adiantou que para tanto, havia o detalhe de poder não funcionar com seu entiado. Mesmo assim, Edin pediu que o fizesse. Regilnaldo disse que com Ayupe há de se passar no mar o rito. Quando pensaram que não Ayupe se soltou dos cuidados de Iona, pegou seu presente de aniversario e foi correndo para o meio do mato. Todos foram em sua busca e na floresta permaneceram por toda a noite com lampioes. Ayupe deu um jeito de voltar para cabana e adormeceu no mastro de centro.
6.

Quando acordou foi de subito que levantou e se lançou rumo ao mar. Quando viu os mergulhadores da beira da praia, montou em sua pequena jangada, enquanto forçava contra as onda com braçadas. Foi quando o cheiro do mar lhe enfiou nas narinas com impeto tal que lhe deu tonteira e fez cair Ayupe no mar a mais ou menos sessenta metros da praia. A primeira vez que Ayupe sentiu cheiro foi a vez que ele não quis recusar e, na ansia de sugar o odor pelas fuças se afogou.
Ayupe acordou na antiga cabana. Antes do incendio. Sua mae foi quem lhe salvou do afogamento. Foi uma cena cheia de abraços quando do seu despertar. Ayupe se levantou em pé em seu corpo de um ano de idade e fez com força para sentir os aromas presentes... nada. Alguem gritou: meu filho acordou! Era Edin, que agora nestas condiçoes de existência se virava de capitao do mato. Foi o homem que no dia de ontem de agora tinha apanhado do terreno de Onofre um preto fugitivo que por ter oferecido resistencia no aprisionamento, foi levado à morte. Tal preto era Regilnaldo de outro tempo. Talvez, agora nem sejam mais Edin e Ayupe o nome dos outros.




soliloquio de um visionario

O caso de Adanaldo






1.





O findar das trevas da madrugada se estremecia em um ventar frio sobre arbustos num trecho, onde a pouco apagara a luz dos postes a algum custo. Adanaldo, descontente, esgueirava-se nos altos muros da indústria de fusão do aço bruto. Por trás dos tapumes rugia um chiado de fornalhas que, na ação das chuvas, brumas de vapor fazia surgir de fora e, deslizavam fantasmas quentes nas paredes. Adanaldo previa estar à beira de um pé d’água.
A alguns passos antes de uma fenda obscura que se fez beco, onde anônimos se apelidavam com álcool e por muitas vezes lá dormiam, um cheiro forte de gordura aberta em corte em corpo vivo, enfiava-se, como dedos de odor que fincam, nas narinas de Adnaldo.
Era muito tímida sua vontade de seguir adiante. Então, debruçou-se sobre seus sapatos. Pensava que daqui a alguns instantes estariam insuportáveis inchados como esponjas. E por seu estado de espírito presente, seriam como esferas de ferro denso preso à corrente no tornozelo fatigado.
As primeiras gotas caíram gordas, feitas moedas em bolhas de mercúrio. Não doía no contato quanto o futum que subia agora. Em pouco tempo, Adanaldo se encharcou de cima a baixo e, por sorte avistou que o beco habitava alguém na tenda de lona posta com duas, três estacas de madeira. Mais alcançava a tenda, mais o fedor se exagerava. Já não sentia os pés dormentes pela chuva misturada à friagem e, a imersão na atmosfera da tenda confirmou que era dali onde aquele inusitado cheiro partia.
Por vinte minutos a chuva devorava o horizonte, tornando-o turvo como a fase da neblina no jogo Enduro do Atari. Adanaldo se agoniou e, mesmo antes da chuva terminar se apressou em direção a seu apartamento.
“Desapareço! Sumo! Ninguém vai me encontrar agora.”
Pronunciou isso enquanto abria a porta.
Adanaldo sofria de ataques e convulsões sinceras. Seu estado não era bom. Fazia dois anos, tinha aceitado trabalhar no despacho de cadáveres de outras cidades que por ventura ali, em Cartinima, pediam passagem no cemitério. Aroldo, seu superior, era quem organizava tudo na verdade. Cabia a Adanaldo somente suspender o caixão com o Omar, coloca-lo dentro da van e despachar, ate o dia em que Aroldo lhe deu outra incumbência: recepcionar os corpos diretamente com Omar.
Certo evento, Adanaldo reparou algo esquisito nas pálpebras de um falecido. A razão de sua atenção ter se voltado a isso foi o fato de não se encontrar os olhos naquele corpo. O coitado Adanaldo não se conteve e mais que ligeiro foi ao encontro de Omar.
“Ei homi! Digo-te e venha ter a prova que em um dos corpos faltam os olhos!”
Omar estatelou os próprios e indagou a maluquice. Quando de fato confirmou que o corpo no caixão pronto e posto no carro para deixar a cidade, estava realmente sem os olhos, engasgou. Recompôs-se com ar de insegurança, tremendo. Chegou bem perto e sussurrou no ouvido de Adanaldo uma dose de surpresa bizarra junta da acidez fétida que lhe escapava da garganta pelo halito.
“Por mil desculpas. Sou filho de Deus como você. Tenho de esclarecer que desde a semana passada sei deste corpo sem os olhos. E sei bem por que fui eu mesmo quem os extraiu. Não ache demais meu caso, de terror. Isso não significou, ate então, absolutamente nada. Continuo o mesmo. Há algum tempo que um senhor me aparece aqui oferecendo 900 contos por cada olho que eu lhe entregar. Desde a semana passada que venho extraindo os olhos dos cadáveres antes de tu despachar.”
“E quantos foram ate agora?” Perguntou Adanaldo que já se ouriçava, suando como um bicho de pele mole.
“Contam já quatro. E o tal senhor diz que precisa de mais.”

2.

Ao se recordar disso Adanaldo engoliu seco depois de passar por uma chuva daquelas, pensando sobre o que haveria de ter feito com o ultimo cadáver. Para ele foi um acidente. Mas, tinha por certo que foi Omar quem causou a morte daquele homem. Quando chegou pela manha na garagem funerária, Omar estava com um comportamento demasiado esquisito. Disse que, antes de Adanaldo chegar alguém deixou um corpo para enviar para outra cidade. So que de uma hora para outra o corpo, supostamente morto tomou vida e o senhor contratante lhe acertou com um cassetete na cabeça. Em seguida, o tal que pagava Omar para extrair os olhos chegou e disse que se apressasse, posto que o tempo fosse curto e este seria o ultimo trabalho.
Os dois homens saíram discutindo em uma língua que Omar disse não saber qual. Deste momento ate a chegada de Adanaldo passaram mais ou menos dez minutos e, ainda Omar não tinha feito o serviço e pediu a Adanaldo que o fizesse, pois tinha de ir buscar o carro para fazer a transferência. Omar se retirou deixando Adanaldo no mas... mas...

3.

Estava ali um corpo robusto. Media um metro e oitenta e pesava mais de noventa quilos seguramente. Adanaldo se contorcia para tomar atitude. Avistou uma faca sobre a mesa. Ao menos parecia. Um peso medroso tomou o lugar e Adanaldo não conseguia flexionar um discurso naquele instante. Foi quando escutou um barulho vindo da porta dos fundos.
Aroldo abriu a porta e se deparou com Adanaldo buscando a faca.

4.

“O que você pensa que esta fazendo Adanaldo?” - Disse Aroldo.
Por trás dele vinha um senhor que fez com a mao para que Adanaldo não dissesse nada. Em instantes o homem asfixiou Aroldo com um pano embebido de formol, sacou da faca na mesa e extraiu delicadamente os olhos do falecido. Surpreendeu Adanaldo enfiando a mao no casaco e puxando um embrulho em papel de pão. Deu para ele, disse “Good.” e se retirou.
Adanaldo abriu o pacote e havia dinheiro de demorar contar. Enfiou no bolso e saiu voado, deixando como estava a situação na funerária.

5.

Já em casa, onde o deixamos, começou a contar o dinheiro que somava 2.000 contos em notas de 10, 20 e 50.
“Desapareço! Sumo!”
Quando pensou que não, desferiram um golpe que levou abaixo sua porta. Era o tal senhor que estava no beco horroroso. Sua feição era de um vandalo disposto a estrangular. Correu enlouquecido na direção de Adanaldo que fugia entremeios das cortinas, caindo pelas janelas e, correndo feito doido, pulou o muro dos fundos da sua casa e se perdeu noite adentro. Estava encucado porque raios alguém iria atrás dele. Se fosse pela cena na funerária já era demais, pois todo o serviço estava feito. Sera que o brutamonte foi enviado por Aroldo? O animo lhe foi baixando a energia vital e o levou ate a funerária novamente. Não percebia o porquê de seu corpo ter tomado autonomia e ido sem consciência ate la.

6.

Não havia mais nada na cena. Tudo estava limpo. Sem Aroldo, sem caixão, sem defunto, sem sangue; limpo. Algo apossou de Adanaldo de vez e o fez sentir calafrios internos e adimirar vultos pretos que circulavam na sala por cima das coisas. Parecia que tinha algum gás disperso; algum gás que dah tonteira e devaneio. Adanaldo sai pela segunda vez se esgueirando nos muros da indústria e percebe os vultos sobre a fumaça que a chuva fria no muro quente deixava subir constantemente.
O cheiro. Aquele cheiro de gordura de gente. Adanaldo entrou no beco e a tenda ainda la estava. Ele seguiu o cheiro ate os fundos e se sentou recostado. Com as mãos soterrava os dedos na lama em poça ao seu lado em chão batido. Havia perdido a consciência por ora.
Foi quando sentiu uma textura plástica, enquanto enfiava a metade do antebraço dentro da lama. Era algo como um saco que Adanaldo puxou para a superfície. Um saco preto com o odor ruim de antes elevado a décima potencia. Adanaldo teve a displicência de olhar o que havia dentro. Eram dois pares de olhos frescos. O que fez Adanaldo supor que seus donos não estariam longe. De pensar que havia duas pessoas sem os olhos por ai, Adanaldo se irritou e soltou um grito escandaloso. Não sabia o que pensar e foi correndo ate o cemitério.
Logo na entrada, com o saco na mao, Adanaldo sentiu um torpor que tomava a atmosfera inteira. Entrou corajoso e seguiu para uma capela distante. La havia dois corpos no chão. Observou bem e viu que não tinham olhos. Observou mais e percebeu sangue nas bocas. Grotesco. Adanaldo perdeu a força nas pernas e sentou, danando a chorar, fazendo os corpos de encosto. Não sabia se os olhos que tinha em mãos eram daquelas pessoas. Não sabia o que haveria daquelas pessoas terem feito para estarem com os lábios de sangue.
Ao lado havia uma carta. Um pedaço de papel, junto de uma espécie de colher bem côncava pontiaguda. Havia também uma caneta.
Ensandecido, Adanaldo leu o trecho escrito, pegou a caneta e escreveu abaixo, como uma assinatura -“morto”.
Sacou da colher e somente imaginou amargurado. Arrancou os próprios olhos. A dor que o consumia o fez mastiga-los gofando, engoliu em seguida apagou. Sobre os outros dois corpos. Sua ultima visão foi o escrito no papel que apreciava a seguinte poesia assinada por Adanaldo:

Para desvirginar o labirinto
Do velho e metafísico Mistério
Comi meus olhos crus no cemitério
Numa antropofagia do faminto
A digestão desse manjar funéreo
Tornado sangue transformou-me o instinto
De humanas impressões visuais que sinto
Das divinas visões do íncola etéreo!
Vestido de hidrogênio incandescente,
Morto!













Apresentaçao

entao almas,
pensemos em conjunto a alusao dos sentidos... pensemos se o sentir pode ser pensado. sinto cheiro, gosto... e os dois parece que me vem ao mesmo instante. sera? a linguagem é o possivel para que o sentido apareça e o sentimento é mai véi doquenoses...
a apropriaçao das linguagens sem politica nem eticas dos sentimentos para o esforço doente de nossa saude literaria é o que vos rogo.
o intuito pragmatico? é ver o logos nossos empapelados. uma materia prima reunida de nossos textos. matriz figurativa de nossos desejos. de nossos anseios em papeisteismos.
deixo meu conto sobre nosso primeiro sentido: o olho.
comecei um outro sobre o Olfato, o cheiro... acabo ele daqui a pouco e posto.
tenho dito.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

efeito drogler

nem tudo que vês está em frente aos olhos.
nem tudo que está em frente aos olhos vês.
enxerga a diferença? clara ou escura?
e também não está sozinha quando dorme desacompanhada em seu quarto.
alguém te observa, com olhos de gato e vontade de cachorro carente ao contrário.
e você se pergunta por que sonha ou pesadela. por que acorda bem disposta ou passa o dia sonambula.
é esse bixo que é mistura de gato e cachorro que não é feito de carne que tem um efeito sobre você.
e quando triste, e recorrer ao superior, tornará o bixo vermelho, como as cores adjacentes ao redor do sol nascente no horizonte que dessa cidade ainda podemos ver.
mas ele ainda será invisível aos olhos.
e as pessoas de olhos claros enxergam mais que as de olhos escuros.
só não perceberam isso ainda pois as de olhos escuros mentem mais. percebe? é claro.
e os olhos mais claros também são mais inocentes.
olhos pretos tiveram que ganhar a vida.