Desperta, atrasado e permanece na cama por uns segundos, sentindo na boca o gosto da manhã. A vida lá fora já acontecia e, logo, ele iria se juntar a ela. Pouco a pouco foi acordando: primeiro os pés, os pulmões e finalmente os olhos... Da varanda ele olha as janelas do prédio a frente. De lá, dois homens que também fumam assistem o prédio dele, apontando algo andares acima. Um helicóptero sobrevoa o bairro e uma garota, sensível, não se dá conta. Varre o chão, outra vela; os dias valem muito quando alguém está prestes a morrer. Os papéis permanecerão distribuídos, incertos, em cima da mesa. A lembrança de um encontro. Com as roupas de sempre, o homem sai; está atrasado mas não se importa muito. Martín é editor. O dia fechado, a janela fechada, a cortina fechada, e os pratos, copos e talheres continuam na pia, ainda limpa desde a mudança. Tem algum dinheiro mas isso não chega a ser bom. Seis metros abaixo o ar é mais frio. "Queria cobrir tudo com papel pra não sentir cheiro de nada." Julião. Uma fresta de claridade transpassa o olho mágico que é só um buraco na porta. Primeiro cigarro do dia, primeiro cancêr do dia; apesar de não querer parar, sempre associa o cigarro à doença. Há quem prefira urtigas. Comprou novas pílulas brancas, diferentes daquelas que tomava. Mas de um branco tão igual ao outro, igual também pelo formato, pelo tamanho. Idênticas. Misturou com as de sempre num mesmo pote e todo dia antes de sair coloca uma na boca. A moda e outras tendências determinam a estação. Os óculos escuros também servem para o frio. Hoje ela precisa de mais do que simplesmente passar a mão no corrimão pra sentir a vida. E quando estiver morta vai sentir mais falta disso... Por que ainda vai poder questionar. Ou não. Então não vai sentir falta alguma, não vai sentir nada. Aquela velha história de pensar no que os outros pensam. Ao passar pela lado da mulher, Martín provocou. "Se for pular vai morrer de frio antes mesmo da água entrar no pulmão." A morte persiste, o frio é novidade. O que dói é não haver lágrimas. É pra isso os óculos. A avó é se decompõe na cama e o médico diz que ainda é viva. O pouco dinheiro da conta miserável que a mãe lhe deixou depois do acidente vai aos poucos se esvaindo...indo. Permanece a idéia de que o médico vai manter essa situação. É confortável. É socialmente bem quisto. Ela não tem ninguém. Mas, mesmo sozinhas, grande parte das pessoas não fariam determinadas coisas por uma idéia de humanismo. Não fariam nem mesmo na frente dos seus animais de casa. Ainda na cama e teu bicho vem lhe dar atenção - cuidava de cachorros, agora só gatos. É só fome, bicho infiel... Hoje trata-o bem, mas nos outros dias geralmente enfia-lhe a porrada ou atazana sua vida apertando as carnes do corpo pequeno. Ao sair, dá-lhe comida, água e limpa suas sujeiras. Um gato preto num quarto escuro deixa a leve impressão de que está sempre a sorrir. Talvez prefira estar só. "Café?" ... "Você não parece estar bem." Ele se concentra em olhar o rosto, e adivinhar o buraco dos olhos por trás da lente. "Não chora..." Dói mais. Cinzas tampando o cigarro incandescer, sombra cortando a feixe no buraco mágico e o brilho na lente que esconde o que deveria ser o buraco preto do olho. São 3; os outros só assistem. Um encontro pra hoje, vai chover. Antonela trabalha no grupo de teatro da cidade apenas a alguns meses, mas seus papéis são sempre parecidos. Ela se põem dentro deles, não o contrário. Ele está apaixonado de novo. A conversa durante o café mostra que, casualmente, eles moravam no mesmo prédio; ele dois andares abaixo. Ela o vê como uma grande oportunidade. Mesmo com a chuva forte, ainda teve o cuidado de dizer com calma, pra não ter que repetir. Olhava ele fazer seu pedido de desculpas sem ouvir o que era dito ele se comportava diferente, falando mais baixo, procurando o que olhar. Pensa na sorte quem gosta de se provocar. "Comprei pílulas de farinha do mesmo tamanho, do mesmo formato, da mesma que a outra que não era de farinha, e misturei-as num pote só. Todo dia ao sair de manhã ponho uma na boca. Tem umas que eu percebo que peguei a certa pelo gosto."
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
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muito curioso!!! situações inusitadas entrando umas nas outras... um pouco confuso... não a confusão de carol (que explodiu em conflitos, mas sabia o que queria)... senti que bbrant não sabia muito o que queria... minto?
ResponderExcluirhum...não sei se não saber o que se quer já é saber o que se quer, pois já sabemos o que não se quer para poder saber o que se quer..er...confuso, sim, muito confuso...mas me gusta...gosto de narrativas turbulentas...no caso brant vemos pitadas dos olhos, não se vê um tema explícito, mas implítico...não se enxerga o que ele quer explicitamente, mas vemos o que ele não quer implicitamente...seria assim , talvez...um recorte da vida nos mostra que ele é só um recorte, e por issp mesmo sem começo e sem fim.... casos do caos diria
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