segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Olhonomalia ou vistas viscerais

Sendo assim, que toda anomalia é um debruçar-se eterno a uma singular estranheza, não se podia nem ao menos imaginar o horizonte que ele vislumbrava. O olho-furúnculo. Impossível, retrucavam as verdades. Mas o corpo estava mais do que certo. O olho estava deslocado. Achatado entre a vesícula e o pâncreas. Resignado entre as paredes macias dos órgãos o olho via, mas o que ele via? Nada certo, retiraremos em três dias, serão necessários alguns testes, mas tudo acontecerá bem. Mas o olho já havia se acostumado em olhar a cavalar corrida dos fluidos, as pulsões macias de contornos gelatinosos, os gazes endurecidos e estufados, a respiração embalando todas as cadências. Não era de todo o mal. Passava horas com os olhos fechados, para ver com o único olho que não se podia fechar nunca. Às vezes lacrimejava nesse avesso que era sua condição. Apenas conhecer uma embaraço todo feito de uma matéria mole, tudo que vê parece frágil, extremamente frágil. O olho constata: não parece, é. O olho de fora era espaço longo, dimensões plenas, um quadro renascentista, Gustave Coubert menos desfocado.O olho de dentro feito de composições arriscadas, texturas desagradáveis, líquidos animados, estranhas dobras, Francis Bacon de cores mais opacas talvez. O cérebro então se acostumou entre duas imagens intersectadas: um realismo pleno e um misto de surrealismo com abstracionismo escatológico. Os órgãos nunca estiveram organizados. O olho-possível. Todos, assombrados pelo o que esse olho via, declararam-no inquilino indesejável, desagradável, brusco e até mesmo pornográfico. Trataram de revelar que qualquer imagem que venha de uma tal intimidade cotidiana com a interioridade é imoral. Tudo bem, o olho-subversivo. Nada poderia ser enunciado que fosse referido àquela visão. Era tempo de ferramentas poucas, máquinas incapazes de conhecer o que o olho via. Era somente ele que conhecia a organicidade vinda desses movimentos abdominais. Parece uma vagina embrulhada. Não, uma boca de mucosa amarelada, um bloco espesso púrpura, porosidade sólida, esponja amarga. Só pode estar louco. Palavras sem sentido, o olho está louco. Ela sabe do fora conhecendo o mais puro dentro. Quando o dia ferozmente arrebatava de súbito sua realidade crua, eram semi-amarelados os fluxos de trocas demasiadas, viscosidade colidindo com algumas partes flutuantes, o tempo era delicado frente a uma rapidez de oxigênio. Havia também, com algumas dormências excitantes, um tremer intenso vindo de alguma camada dura comprimida entre pequenas bolas engorduradas e o epitélio, tudo parecia descontrair-se numa suave leveza após os ataques repentinos e turbulentos. Constatando assim, o inconstatável, era mais do que se poderia ver meramente. Era conhecer todo aquele trânsito infinito de partes movediças para algo conhecer. Que coisa é essa, todos se perguntavam, que coisa é essa? O olho sabe, é corpo funcionando sem nenhuma paragem, até mesmo o mais puro repouso é já por si só um pleno movimento. O olho-corpo. Não haveria de ficar assim. O olho conhecia demais então, e para se conhecer demais o olho deve estar localizado no cérebro, na cabeça, não nessa parafernália de engrenagens que faz tudo virar merda. O olho via o que não pode ser visto e assim somente ele poderia conhecer uma outra face do que se faz o conhecer. Mas não se poderia entender dessa forma do que se tratava. O olho declarava: vejo asperezas disformes, algumas flutuam e se apegam a compartimentos que podem mudar brevemente de forma, concluindo mais uma entrada, ou uma saída, parecem corredores gordos de alguns muitos vestígios. Não pode ser, não pode ser. Não há funções definidas, estruturas bem delimitadas, retas, rotas, rumos? O olho respondia: me parece mais um caos feito de livres associações infinitas secretando-se a si mesmo a todo instante. O olho-turbilhão. Desamparado pela falta de linguagem cabível para a visão que a ciência até então apenas supunha, o olho foi convidado para algo mais prático e objetivo. Desenharia os fluxos que enxergava para um possível manual de anatomia do trânsito digestivo humano. Francis Bancon com traços de Picasso. Não agradou aos olhares especialistas, realistas, cientistas. O olho-enxerto. Então com a complexidade rasgada do material de normalidade entendido pela linguagem, o olho virou excremento, mais do que anomalia, agora era margem achatada pela falta de compreensão. Mas se ele era o pus indiscreto que todos acabavam por ignorar, sabia somente ele da incoerência que enxergava. Não poderia ser retratado, o quadro das carências de algo menos limitado era demasiado nos homens da verdade. Ele era dobra porque compunha no seu espremido plano um horizonte curvado sobre si mesmo. O asco perfeito, o que todos se perguntavam, mas nunca conseguiriam ver de perto. E mesmo se vissem, o olho não estava certo se suportariam as imagens cruas sem se deixar levar pela náusea. O olho-invaginado. Olho cápsula boiando como um intruso nos órgãos. Ele não havia sido convidado, mas estava lá, visita desagradável. Inconveniente. Quase ausente. Perdia-se entre a vontade certa de apenas continuar olhando, afinal, era sua função definida, e entre as alegorias visuais que nunca se davam por satisfeita pelos outros. Refletiu-se por um instante e percebera que a anomalia de sua vista era o que o homem mesmo carregava diariamente com toda a volúpia certa de normalidade nas vísceras do cotidiano. O que era anormal então? O que o olho via ou o local em que ele se encontrava ? Perguntara aos outros olhos. Eles não saberiam informar se o que há de anormal é o próprio corpo humano , ou se poderia ser assim , uma espécie de deslocamento visionário, onde os órgãos se confundem e o olho acaba por perder sua origem satisfatória: a proximidade com o cérebro. O transtorno e a falta de obviedade vinda dos olhares humanos o encarceravam ainda mais para sua interioridade vista de perto, com os olhos de quem conhece o mais profundo e sabe que o que nos compõe não pode ser legitimado por uma ou outra fantasia especulativa que vinha de uma certa concepção conspirologica. A anormalidade são os outros, o olho digeria. Alguns até mesmo chegaram a declarar que o que o olho via era sua alma, e se ele estava a ver tantas atrocidades era preciso se salvar logo. O olho ria. Era já de gargalhadas as possíveis interpretações para todos os seus movimentos.Observar o visto do olhar virado ao avesso, talvez eles não fossem capazes , talvez eles não estivessem preparados, talvez. Como poderia perdurar com somente uma impressão se sua condição já o fazia encarar as coisas sob aos menos, dois pontos de VISTA, contrários ou não, mas possivelmente conectados, já que às vezes preferiria olhar para os seus movimentos interiores para saber o que acontecia no fora, do que meramente constatar a realidade. Já que conhecia as circunstâncias da locomoção diária de seus gazes e de seus resíduos que se faziam de tal ou tal maneira diante de cada momento, horizonte, compreensão. Já que os olhares eram feitos num acordo mútuo para a conexão de uma certa massa inconstante que o atravessava, toda as arestas do desejo lhe era permitido vislumbrar. Se cada olho poderia enxergar o processo ininterrupto de cada horizonte que lhe é permitido conceber como um todo que se quebra em partes microscópicas, como uma imagem 3D, não um achatamento banal das possibilidades, ele se corrompia para enxergar todas as faces que compõem uma imagem. Por mais aparentemente plana, toda a paisagem obtinha o seu avesso, toda a situação sua nova face, toda a particularidade uma nova incerteza. Mas não se podia ser exato assim, não se podia conceber uma verdade, nem uma resposta estática, sem encarar somente um lado das coisas, um lado das circunstâncias ditadas como certas e propriamente adequadas para um brusco ofuscamento das transparências, num ridículo achatamento banal de uma cartesiana linha somente........
Um certo dia, num acontecimento inédito que não se sabe ao certo a data ou o local, mas realizado no ambiente de um grande fluxo de olhares,num movimento repentino de quem somente guarda discretamente todas as angústias num silêncio resguardado porém atormentado, o olho grita num misto de expelir-se para fora com uma vontade louca de um enclausuramento extremo. Um botar-se para fora e dirigir-se para dentro é efetuado numa mesma velocidade e intensidade que os dois olhos que ocupam a proximidade com a massa cefálica se arregalam para uma disfunção inabitual e agora sim, porque não, anormal. As microveias dos olhos se rompem com a dor que envolvem sua dilatação e avançam sobra a gelatina branca num lento e horripilante avermelhamento do globo ocular. Seus olhos tornam-se sangue, chora-se num pranto satírico, já não se sabe se o grito é de dor ou de alegria, uma risada macabra, um gemido extasiado ou uma longa e ligeira sensação de conforto apenas. Não era questão de milagre chorar sangue, era somente o homem vivo rompendo o limite na sua extensão máxima do suportável ou do insuportável, ele agora, talvez, apenas começasse a ver somente o dentro para compreender melhor assim a visceralidade do fora de cada momento.
carol

Um comentário:

  1. velhinh@s!!!! muito bom... muita sacada o olhos que so ve a merda descendo... o olho do verme que cega em sangue.

    ResponderExcluir