sexta-feira, 30 de outubro de 2009

vitral

Desperta, atrasado e permanece na cama por uns segundos, sentindo na boca o gosto da manhã. A vida lá fora já acontecia e, logo, ele iria se juntar a ela. Pouco a pouco foi acordando: primeiro os pés, os pulmões e finalmente os olhos... Da varanda ele olha as janelas do prédio a frente. De lá, dois homens que também fumam assistem o prédio dele, apontando algo andares acima. Um helicóptero sobrevoa o bairro e uma garota, sensível, não se dá conta. Varre o chão, outra vela; os dias valem muito quando alguém está prestes a morrer. Os papéis permanecerão distribuídos, incertos, em cima da mesa. A lembrança de um encontro. Com as roupas de sempre, o homem sai; está atrasado mas não se importa muito. Martín é editor. O dia fechado, a janela fechada, a cortina fechada, e os pratos, copos e talheres continuam na pia, ainda limpa desde a mudança. Tem algum dinheiro mas isso não chega a ser bom. Seis metros abaixo o ar é mais frio. "Queria cobrir tudo com papel pra não sentir cheiro de nada." Julião. Uma fresta de claridade transpassa o olho mágico que é só um buraco na porta. Primeiro cigarro do dia, primeiro cancêr do dia; apesar de não querer parar, sempre associa o cigarro à doença. Há quem prefira urtigas. Comprou novas pílulas brancas, diferentes daquelas que tomava. Mas de um branco tão igual ao outro, igual também pelo formato, pelo tamanho. Idênticas. Misturou com as de sempre num mesmo pote e todo dia antes de sair coloca uma na boca. A moda e outras tendências determinam a estação. Os óculos escuros também servem para o frio. Hoje ela precisa de mais do que simplesmente passar a mão no corrimão pra sentir a vida. E quando estiver morta vai sentir mais falta disso... Por que ainda vai poder questionar. Ou não. Então não vai sentir falta alguma, não vai sentir nada. Aquela velha história de pensar no que os outros pensam. Ao passar pela lado da mulher, Martín provocou. "Se for pular vai morrer de frio antes mesmo da água entrar no pulmão." A morte persiste, o frio é novidade. O que dói é não haver lágrimas. É pra isso os óculos. A avó é se decompõe na cama e o médico diz que ainda é viva. O pouco dinheiro da conta miserável que a mãe lhe deixou depois do acidente vai aos poucos se esvaindo...indo. Permanece a idéia de que o médico vai manter essa situação. É confortável. É socialmente bem quisto. Ela não tem ninguém. Mas, mesmo sozinhas, grande parte das pessoas não fariam determinadas coisas por uma idéia de humanismo. Não fariam nem mesmo na frente dos seus animais de casa. Ainda na cama e teu bicho vem lhe dar atenção - cuidava de cachorros, agora só gatos. É só fome, bicho infiel... Hoje trata-o bem, mas nos outros dias geralmente enfia-lhe a porrada ou atazana sua vida apertando as carnes do corpo pequeno. Ao sair, dá-lhe comida, água e limpa suas sujeiras. Um gato preto num quarto escuro deixa a leve impressão de que está sempre a sorrir. Talvez prefira estar só. "Café?" ... "Você não parece estar bem." Ele se concentra em olhar o rosto, e adivinhar o buraco dos olhos por trás da lente. "Não chora..." Dói mais. Cinzas tampando o cigarro incandescer, sombra cortando a feixe no buraco mágico e o brilho na lente que esconde o que deveria ser o buraco preto do olho. São 3; os outros só assistem. Um encontro pra hoje, vai chover. Antonela trabalha no grupo de teatro da cidade apenas a alguns meses, mas seus papéis são sempre parecidos. Ela se põem dentro deles, não o contrário. Ele está apaixonado de novo. A conversa durante o café mostra que, casualmente, eles moravam no mesmo prédio; ele dois andares abaixo. Ela o vê como uma grande oportunidade. Mesmo com a chuva forte, ainda teve o cuidado de dizer com calma, pra não ter que repetir. Olhava ele fazer seu pedido de desculpas sem ouvir o que era dito ele se comportava diferente, falando mais baixo, procurando o que olhar. Pensa na sorte quem gosta de se provocar. "Comprei pílulas de farinha do mesmo tamanho, do mesmo formato, da mesma que a outra que não era de farinha, e misturei-as num pote só. Todo dia ao sair de manhã ponho uma na boca. Tem umas que eu percebo que peguei a certa pelo gosto."

terça-feira, 27 de outubro de 2009

SOBRE O QUE NÃO PODE SER VISTO

AE BETINHO, JÁ QUE TU NUM ENTRA, ROUBEI DO TEU BLOG PRA POSTAR...HUF!

Existia um olho que ficava em um cego que ficava em uma praça. Este cego que nunca viu, pois era cego de nascença, afirmava que seu olho esquerdo não lhe pertencia, lhe havia sido presenteado por um importante rei caolho, que por sua vez o tinha herdado de um grande místico hebraico, o qual o tinha encontrado duzentos anos antes, em baixo de uma pedra no Egito.No entanto era um olho, e como qualquer outro olho, olhava. O que diferenciava este olho de qualquer outro olho é o que este olho via. Talvez por uma grande maldição agregada ao olho ou apenas uma grande ironia do destino, a única coisa que este olho podia ver era justamente aquilo que não podia ser visto.O cego, como era cego, não podia ver nem mesmo aquilo o que não podia ser visto. Mas ele sempre sabia que o olho estava olhando o que não era para ser olhado. Assim o cego sempre praguejava:_Maldito olho! Já vai começar a olhar o que não é para ser olhado. Ainda bem que sou cego. Porque se não estaríamos perdidos, pois o que não pode ser visto estaria sendo visto e o mundo inteiro viraria um grande caos. Que fardo pesado este que eu tenho que carregar!Por sua vez o olho também odiava o cego. Já que este passava os seus dias sentado na mesma praça e nunca proporcionava ao olho novas paisagens para que o olho procurasse nelas o que não podia ser visto. O olho, assim, também praguejava o cego:_Maldito cego, passa todos os seus dias e noites nesta mesma maldita praça, nunca me proporciona novas possibilidades de ver o que não se pode ver. Ver o que não pode ser visto em novos horizontes, diferentes a cada dia. Ver o que não se pode ver em situações diversas, em corpos diversos. Ver o que não se pode ver em movimento... Como eu gostaria de ver o que não se pode ver andando de moto... Destino desgraçado! Fez-me vir a habitar justamente a órbita ocular de um cego! Eu aqui me esforçado para ver tudo aquilo que não pode ser visto e não tenho com quem compartilhar, vivo neste mundo solitário e tedioso onde quase todas as coisas que não podem ser vistas eu já vi e tudo isso apenas para manter a ordem em um mundo onde as coisas mais importantes para serem vistas são justamente aquelas que não se pode ver... Que sina terrível esta de ser o olho de um cego. Quarenta anos depois, o olho já tinha visto tudo o que não podia ser visto a partir daquela praça, já tinha visto o que não podia ser visto das pedras da praça, já tinha visto o que não podia ser visto das árvores daquele local, já tinha visto o que não podia ser visto dos bancos da praça, do céu, do dia e da noite, das casas, do ar, o olho já tinha visto tudo o que não se podia ver. Até mesmo o que não se podia ver do cego que o portava, inclusive por dentro, pois quando o cego dormia o olho aproveitava para dar uma espiadinha no que não podia ser visto por dentro do cego.Foi quando o cego morreu. Antes de morrer, agonizando e se retorcendo no chão, uma grande felicidade o invadia, pois ele sabia que os seus longos anos de guardião do terrível olho estavam por terminar. No entanto ele também sabia que tinha que resistir, pois não podia morrer sem passar seu fardo para um próximo na linha de sucessão, aquela era a sina do olho, ele deveria ser passado adiante e ninguém poderia olhar por ele. Mas quem? Perguntava-se o cego, quem seria digno de tal sina? Com a agonia da morte cada vez mais próxima o cego decidiu optar pelo destino, entregaria o olho ao primeiro que viesse em seu socorro. Assim começou a gritar por ajuda, o primeiro a aparecer foi um jovem menino que passava por ali:_ O senhor necessita de ajuda? Vou chamar ajuda!Disse o menino. Já virando o rosto buscando não ver a cena daquele pobre moribundo agonizando._ Não! Volte!Gritou o cego com suas últimas forças._ Menino, pobre menino, o destino lhe enviou para esta minha última hora. Tenho algo para lhe dar. Vê este meu olho esquerdo?O menino acenou afirmativamente com a cabeça._Vê?!Insistiu o cego, já que este não tinha como ter visto o gesto do garoto._Sim! Eu vejo!Respondeu o garoto já bastante atordoado pelos fatos._ É uma pena que veja... Respondeu o cego. _Esperava que o destino me enviasse alguém cego para que eu pudesse passar meu fardo, isso apenas aumentará o tamanho do fardo que passo adiante. Pois bem, este meu olho esquerdo não é um olho qualquer ele é um olho que vem sendo passado a gerações, e você garoto! Será o próximo guardião do olho, este olho é um olho que vê tudo aquilo que não pode ser visto, portanto, preste muita atenção! Nunca, nunca olhe por este olho porque o que não pode ser visto é para não ser visto e assim deve continuar, entendeu garoto? Caso você olhe por este olho o que não pode ser visto terá sido visto e o mundo inteiro entrará em um caos completo!Com suas últimas forças, antes de morrer, o cego arrancou seu olho esquerdo e entregou para o menino. O olho, antes disso nem tinha prestado muita atenção no menino, pois estava fortemente entretido vendo aquilo que não podia ser visto da morte do cego.O menino com o olho em mãos e as pesadas palavras do cego em sua mente correu para casa se esquecendo até mesmo de tentar socorrer o cadáver que ali jazia. Chegando rapidamente em casa, o menino entrou em seu quarto, trancou a porta, fechou as janelas e olhou para o olho, no mesmo momento o olho olhou firmemente para tudo aquilo que não podia ser visto no olho daquele jovem menino. Eles ficaram ali por horas: o menino olhando para o olho e o olho olhando para o menino. Foi Quando o menino em um súbito movimento, motivado por uma grande curiosidade que tomava conta de seu corpo inteiro, principalmente de seus olhos, pegou o olho e deixando de lado todas as advertências do cego, olhou por ele.Depois desse dia o menino, o olho e o mundo nunca mais foram os mesmos, pois finalmente tudo aquilo o que não podia ser visto, foi visto, e assim se tornando outra coisa que não aquilo o que não pode ser visto. Logo, tudo foi outra coisa que não a coisa mesma e sim algo diferente.Fim.

MAS QUE VERGONHA

KD VCS SEUS TRAMBIQUEIRO DE ALAMBIQUE?!?!?

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

AE

ENTÃO AE
VAMO AE

Olhonomalia ou vistas viscerais

Sendo assim, que toda anomalia é um debruçar-se eterno a uma singular estranheza, não se podia nem ao menos imaginar o horizonte que ele vislumbrava. O olho-furúnculo. Impossível, retrucavam as verdades. Mas o corpo estava mais do que certo. O olho estava deslocado. Achatado entre a vesícula e o pâncreas. Resignado entre as paredes macias dos órgãos o olho via, mas o que ele via? Nada certo, retiraremos em três dias, serão necessários alguns testes, mas tudo acontecerá bem. Mas o olho já havia se acostumado em olhar a cavalar corrida dos fluidos, as pulsões macias de contornos gelatinosos, os gazes endurecidos e estufados, a respiração embalando todas as cadências. Não era de todo o mal. Passava horas com os olhos fechados, para ver com o único olho que não se podia fechar nunca. Às vezes lacrimejava nesse avesso que era sua condição. Apenas conhecer uma embaraço todo feito de uma matéria mole, tudo que vê parece frágil, extremamente frágil. O olho constata: não parece, é. O olho de fora era espaço longo, dimensões plenas, um quadro renascentista, Gustave Coubert menos desfocado.O olho de dentro feito de composições arriscadas, texturas desagradáveis, líquidos animados, estranhas dobras, Francis Bacon de cores mais opacas talvez. O cérebro então se acostumou entre duas imagens intersectadas: um realismo pleno e um misto de surrealismo com abstracionismo escatológico. Os órgãos nunca estiveram organizados. O olho-possível. Todos, assombrados pelo o que esse olho via, declararam-no inquilino indesejável, desagradável, brusco e até mesmo pornográfico. Trataram de revelar que qualquer imagem que venha de uma tal intimidade cotidiana com a interioridade é imoral. Tudo bem, o olho-subversivo. Nada poderia ser enunciado que fosse referido àquela visão. Era tempo de ferramentas poucas, máquinas incapazes de conhecer o que o olho via. Era somente ele que conhecia a organicidade vinda desses movimentos abdominais. Parece uma vagina embrulhada. Não, uma boca de mucosa amarelada, um bloco espesso púrpura, porosidade sólida, esponja amarga. Só pode estar louco. Palavras sem sentido, o olho está louco. Ela sabe do fora conhecendo o mais puro dentro. Quando o dia ferozmente arrebatava de súbito sua realidade crua, eram semi-amarelados os fluxos de trocas demasiadas, viscosidade colidindo com algumas partes flutuantes, o tempo era delicado frente a uma rapidez de oxigênio. Havia também, com algumas dormências excitantes, um tremer intenso vindo de alguma camada dura comprimida entre pequenas bolas engorduradas e o epitélio, tudo parecia descontrair-se numa suave leveza após os ataques repentinos e turbulentos. Constatando assim, o inconstatável, era mais do que se poderia ver meramente. Era conhecer todo aquele trânsito infinito de partes movediças para algo conhecer. Que coisa é essa, todos se perguntavam, que coisa é essa? O olho sabe, é corpo funcionando sem nenhuma paragem, até mesmo o mais puro repouso é já por si só um pleno movimento. O olho-corpo. Não haveria de ficar assim. O olho conhecia demais então, e para se conhecer demais o olho deve estar localizado no cérebro, na cabeça, não nessa parafernália de engrenagens que faz tudo virar merda. O olho via o que não pode ser visto e assim somente ele poderia conhecer uma outra face do que se faz o conhecer. Mas não se poderia entender dessa forma do que se tratava. O olho declarava: vejo asperezas disformes, algumas flutuam e se apegam a compartimentos que podem mudar brevemente de forma, concluindo mais uma entrada, ou uma saída, parecem corredores gordos de alguns muitos vestígios. Não pode ser, não pode ser. Não há funções definidas, estruturas bem delimitadas, retas, rotas, rumos? O olho respondia: me parece mais um caos feito de livres associações infinitas secretando-se a si mesmo a todo instante. O olho-turbilhão. Desamparado pela falta de linguagem cabível para a visão que a ciência até então apenas supunha, o olho foi convidado para algo mais prático e objetivo. Desenharia os fluxos que enxergava para um possível manual de anatomia do trânsito digestivo humano. Francis Bancon com traços de Picasso. Não agradou aos olhares especialistas, realistas, cientistas. O olho-enxerto. Então com a complexidade rasgada do material de normalidade entendido pela linguagem, o olho virou excremento, mais do que anomalia, agora era margem achatada pela falta de compreensão. Mas se ele era o pus indiscreto que todos acabavam por ignorar, sabia somente ele da incoerência que enxergava. Não poderia ser retratado, o quadro das carências de algo menos limitado era demasiado nos homens da verdade. Ele era dobra porque compunha no seu espremido plano um horizonte curvado sobre si mesmo. O asco perfeito, o que todos se perguntavam, mas nunca conseguiriam ver de perto. E mesmo se vissem, o olho não estava certo se suportariam as imagens cruas sem se deixar levar pela náusea. O olho-invaginado. Olho cápsula boiando como um intruso nos órgãos. Ele não havia sido convidado, mas estava lá, visita desagradável. Inconveniente. Quase ausente. Perdia-se entre a vontade certa de apenas continuar olhando, afinal, era sua função definida, e entre as alegorias visuais que nunca se davam por satisfeita pelos outros. Refletiu-se por um instante e percebera que a anomalia de sua vista era o que o homem mesmo carregava diariamente com toda a volúpia certa de normalidade nas vísceras do cotidiano. O que era anormal então? O que o olho via ou o local em que ele se encontrava ? Perguntara aos outros olhos. Eles não saberiam informar se o que há de anormal é o próprio corpo humano , ou se poderia ser assim , uma espécie de deslocamento visionário, onde os órgãos se confundem e o olho acaba por perder sua origem satisfatória: a proximidade com o cérebro. O transtorno e a falta de obviedade vinda dos olhares humanos o encarceravam ainda mais para sua interioridade vista de perto, com os olhos de quem conhece o mais profundo e sabe que o que nos compõe não pode ser legitimado por uma ou outra fantasia especulativa que vinha de uma certa concepção conspirologica. A anormalidade são os outros, o olho digeria. Alguns até mesmo chegaram a declarar que o que o olho via era sua alma, e se ele estava a ver tantas atrocidades era preciso se salvar logo. O olho ria. Era já de gargalhadas as possíveis interpretações para todos os seus movimentos.Observar o visto do olhar virado ao avesso, talvez eles não fossem capazes , talvez eles não estivessem preparados, talvez. Como poderia perdurar com somente uma impressão se sua condição já o fazia encarar as coisas sob aos menos, dois pontos de VISTA, contrários ou não, mas possivelmente conectados, já que às vezes preferiria olhar para os seus movimentos interiores para saber o que acontecia no fora, do que meramente constatar a realidade. Já que conhecia as circunstâncias da locomoção diária de seus gazes e de seus resíduos que se faziam de tal ou tal maneira diante de cada momento, horizonte, compreensão. Já que os olhares eram feitos num acordo mútuo para a conexão de uma certa massa inconstante que o atravessava, toda as arestas do desejo lhe era permitido vislumbrar. Se cada olho poderia enxergar o processo ininterrupto de cada horizonte que lhe é permitido conceber como um todo que se quebra em partes microscópicas, como uma imagem 3D, não um achatamento banal das possibilidades, ele se corrompia para enxergar todas as faces que compõem uma imagem. Por mais aparentemente plana, toda a paisagem obtinha o seu avesso, toda a situação sua nova face, toda a particularidade uma nova incerteza. Mas não se podia ser exato assim, não se podia conceber uma verdade, nem uma resposta estática, sem encarar somente um lado das coisas, um lado das circunstâncias ditadas como certas e propriamente adequadas para um brusco ofuscamento das transparências, num ridículo achatamento banal de uma cartesiana linha somente........
Um certo dia, num acontecimento inédito que não se sabe ao certo a data ou o local, mas realizado no ambiente de um grande fluxo de olhares,num movimento repentino de quem somente guarda discretamente todas as angústias num silêncio resguardado porém atormentado, o olho grita num misto de expelir-se para fora com uma vontade louca de um enclausuramento extremo. Um botar-se para fora e dirigir-se para dentro é efetuado numa mesma velocidade e intensidade que os dois olhos que ocupam a proximidade com a massa cefálica se arregalam para uma disfunção inabitual e agora sim, porque não, anormal. As microveias dos olhos se rompem com a dor que envolvem sua dilatação e avançam sobra a gelatina branca num lento e horripilante avermelhamento do globo ocular. Seus olhos tornam-se sangue, chora-se num pranto satírico, já não se sabe se o grito é de dor ou de alegria, uma risada macabra, um gemido extasiado ou uma longa e ligeira sensação de conforto apenas. Não era questão de milagre chorar sangue, era somente o homem vivo rompendo o limite na sua extensão máxima do suportável ou do insuportável, ele agora, talvez, apenas começasse a ver somente o dentro para compreender melhor assim a visceralidade do fora de cada momento.
carol